Reportagem

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A dança no telão

 

O artista, grande ganhador do Oscar de 2012

 

 

O último dançarino de Mao (2009), de Bruce Beresford, Cisne negro (2010), de Darren Aronofsky, Pina D (2011), de Wim Wenders, O artista (2011), de Michel Hazanavicius, e, em breve no Brasil, A Dançarina e o Ladrão (2009), do espanhol Fernando Trueba. Nos últimos tempos, produções cinematográficas que têm a dança como parte da trama ou tema central parecem ter tomado conta das salas de cinema do país – e do mundo. Não dá para ser categórico quanto ao interesse do público, mas o fato é que nas duas mais recentes festas do Oscar, a dança esteve presente, e saiu vitoriosa, para alegria de quem gosta do assunto.

Depois da consagração de Cisne negro, O artista, de Michel Hazanavicius, grande vencedor do Oscar deste ano, é uma comédia romântica à moda antiga e começa com um teste de dança, em que Peppy Miller, personagem defendida por Bérénice Bejo, mostra seus dotes artísticos num estúdio de cinema. Na cena seguinte, ela dança valsa com o astro George Valentin (Jean Dujardin) e há ainda uma das cenas finais, em que o casal cria uma coreografia de sapateado.

Tal aproximação entre as duas linguagens ainda não chega aos pés das produções dos anos 1930, 1940 e 1950, quando os musicais de Fred Astaire (1899-1987) levavam, literalmente, milhões de pessoas aos cinemas. E, à moda do que escreveu Ruy Castro a respeito de Astaire, faziam com que os apaixonados pelas artes ainda quisessem executar alguns passos. Com o cinema, muitos quiseram ser Astaire. Sem contar musicais, que mais tarde sustentavam a história com coreografias, como West Side Story (1961), que teve como um de seus diretores o grande coreógrafo Jerome Robbins (1918-1998) ou Hair (1979), de Milos Forman.

Pelo menos, duas gerações conviveram com a dança a cada lançamento de filmes. Muitos ainda vibram ao assistir a velha cena de Cheek to cheek, com Astaire e Ginger Rogers, em O picolino (1935). Também não foram poucos que se encantaram com Fantasia (1940), a animação de Walt Disney, em que movimento e música se

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Ritmo louco, de 1936, com Fred Astaire e Ginger Rogers

Ritmo louco, de 1936, com Fred Astaire e Ginger Rogers
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Fantasia, animação da década de 1940, e suas coreografias lúdica
Fotos: Divulgação

O artista, grande ganhador do Oscar de 2012

O artista, grande ganhador do Oscar de 2012

 

encontram primorosamente. Sem contar que Cantando na chuva (1952), com Gene Kelly (1912-1996), ainda é uma bela referência ao prazer de dançar.

Como se vê, não é de hoje que o cinema flerta a dança – e a dança o cinema –, em seus mais diversos gêneros, em produções que variam da comédia ao drama, passando até mesmo pela animação. Desde seus primórdios, encontramos não apenas cenas antológicas de coreografias, mas filmes inteiros nos quais o tema gira em torno desta arte. Para citar um exemplo, o primeiro filme falado, O cantor de jazz (1927), de Alan Crosland (1894-1936), traz o personagem estrelado por Al Jolson (1886-1950), um jovem judeu que desejava ser artista, dançando em quase todas as tomadas e sequências.

Os filmes mudos, carregados pela herança do vaudeville, em que cantar e dançar eram grandes atrativos aos artistas, traziam sequências inteiras de dança, a exemplo de Os quatro cavaleiros do apocalipse (1921). Mas, a partir de 1927, as produções a tornam mais frequente, como no filme Our dancing daughter (1928), com Joan Crawford e John Mack Brown, dirigido por Harry Beaumont. Podemos citar muitas outras referências que ajudaram a criar a magia da relação da grande tela com o cinema. Ritmo louco (1936), Tempestade musical (1943), Broadway rhythm (1944), Os sapatinhos vermelhos (1948), Dançando nas nuvens (1955), Cinderela em Paris (1957), Bolero de Raquel (1957), até que os musicais modernos começaram a arrebatar o público. Nesta seara, figuram produções como My fair lady (1964), Mary Poppins (1964), Charity, meu amor (1969), em que a dança inspira tomadas memoráveis, como a coreografia que se passa nos telhados no filme Mary Poppins.

Interessante notar que o cinema acaba por mostrar os caminhos da dança seja nas coreografias de grandes nomes da cena mundial, seja na dança de rua ou nas discotecas. Os embalos de sábado à noite (1977), de John Badham, Nos tempos da brilhantina (1978), de Randal Kleiser e All that jazz (1979), Bob Fosse, marcaram época. Ficou no inconsciente coletivo as cenas de Os embalos em que John Travolta, na pele de Tony Manero, defende um mecânico que se transforma em dançarino. É o swing das discotecas invadindo o mundo nos loucos anos 1970. Um parêntese para relembrar que, no Brasil, nesta época, não foi o cinema, mas a TV que retratou a dança de forma ampla, principalmente com Dancin’ Days (1978), novela de Gilberto Braga, dirigida por Daniel Filho, que acaba de ser lançada em formato DVD, pela Globo Marcas. Quem não se delicia ao lembrar de Júlia Mattos, personagem de Sonia Braga, no dancing floor da discoteca que levava o nome da novela?

Mary Poppins, a dança invade chaminés e telhados

 

Nos anos 1980, outra leva que se tornaria clássica. Fama (1980), de Alan Parker, é o primeiro deles. Depois Flashdance (1983), Adrian Line, em que Alex Owens (Jennifer Beals) é uma mocinha que trabalha como soldadora, enquanto alimenta o sonho de conseguir ingressar numa prestigiada companhia de dança. Há ainda outros filmes que merecem ser lembrados: Footloose (1984), Breakdance (1984), Chorus line (1985), Dançando na TV (1985) e, por fim, Dirty Dancing (1987), que se transforma em coqueluche, assim que é lançado. A mocinha Frances “Baby” Houseman (Jennifer Grey) é jovem e rica e descobre o amor e a dança com seu instrutor no hotel de férias, Johnny Castle, vivido por Patrick Swayze (1952-2009).

Na década de 1990, as produções cinematográficas continuaram a paquerar a dança. Vem dançar comigo (1992) é um exemplo clássico. Nesses anos, aparecem produções que não são exatamente sobre dança, mas trouxeram cenas inesquecíveis. Exemplo disso é Al Pacino em seu sensual tango, nas cenas finais de Perfume de mulher (1992), ou então a sequência em que Uma Thurman dança rock com John Travolta, em Pulp fiction (1994).

Há ainda outros filmes como Dança comigo (1997), No ritmo da dança (1998), Sob a luz da fama (2000), Center Stage (2000), em que três jovens – Jodie, Eva e Maureen – buscam ingressar numa prestigiada academia americana de balé. Contudo, é com uma produção britânica, também do ano 2000, que a dança volta a mostrar força na tela. Billy Elliot, primeiro filme de Stephen Daldry, retrata a vida de um talentoso bailarino de 11 anos que vive numa pequena cidade inglesa, onde o principal meio de sustento da população são as minas de carvão.

Em 2001, é a vez do público conhecer o produzido Moulin Rouge, Baz Luhrmann. No ano seguinte, Chicago, do diretor e coreógrafo Rob Marshall, e Fale com Ela, de Pedro Almodóvar. Este último não é um filme exatamente sobre dança, mas ela permeia toda a história e ainda traz Pina Bausch num trecho da coreografia Café Müller (1978) de tirar o fôlego.

 Entre as cenas de dança mais antológicas da primeira década dos anos 2000 é da pequena protagonista de Pequena Miss Sunshine (2006), Abigail Breslin, em uma coreografia de strip-tease num concurso de miss-mirim, nos momentos finais da história.

A lista dos anos 2000 conta ainda com o sucesso Hairspray (2007), de Adam Shankman, e outros menos populares como O poder do ritmo (2007), Ela dança, eu danço 2 (2008), a animação Happy Feet (de 2006), até que Cisne Negro arrebatasse plateias do mundo todo. Agora, com Pina 3D, documentário do alemão WimWenders, entre sessões de balés filmados, podemos ver dança no cinema, como se estivéssemos sentados numa poltrona de teatro. Mais do que isso, podemos passear pelo palco, sentir de perto a respiração dos artistas. Será que surge aqui uma nova forma de assistir a espetáculos de dança? O tempo é quem vai dar a resposta. Por enquanto, torçamos para que a safra cinematográfica atual e seus tantos filmes que trazem esta arte – que têm levado multidões aos cinema -, sirva, de alguma forma, para formar público para nossos bailarinos, que além de merecerem ser retratados no cinema, devem igualmente ser aplaudidos em pé nas salas de teatro.