Entrevista

Redigida em:

A singularidade de um gênio: Jirí Kylián

Foto: Serge Ligtenberg

Jirí Kylián, um dos maiores
 

Coreografia que combina rapidez e fluência
Fotos: Wilian Aguiar

Petite Mort, amor e morte

No próximo dia 17 de junho, Paradox (1970), o primeiro trabalho criado por Jirí Kylián na Noverre Society do Sttutgart Ballet, completa 45 anos. Nesse projeto, que existe até os dias de hoje e incentiva bailarinos da companhia a criarem para si e seus colegas, ele começou a coreografar. Talvez nessa época, não imaginasse o que a arte da criação iria lhe proporcionar ou o que ele se tornaria. Kylián é um dos maiores gênios da coreografia que conhecemos e, nesse quase meio século como coreógrafo, assinou cem obras. Muitas se tornaram marcos da dança mundial.

A São Paulo Companhia de Dança estreia hoje (dia 4 de junho) um triple bill com suas criações (leia matéria sobre toda temporada nesta página), com importantes e emblemáticas peças. A noite começa com Indigo Rose, de 1998, passando por Petite Mort, de 1991, e fechando com Sechs Tanze, de 1986. Respectivamente suas criações números 75, 56 e 44, criadas para o Nederlands Dans Theatre (NDT) II (Indigo Rose) e para o NDT I, quando também era o diretor artístico da companhia.

Essa Noite Kylián, como o programa é chamado aqui, acontecerá na América somente esta semana, com um bônus: a exibição de um trecho de Birth-Day (2001, criação n.80), em vídeo, feita para o NDT 3. Outro triple bill de Kylián, agora, só em Lyon, na França, ou em Gdansk, na Polônia, em setembro. E só.

Em entrevista à Revista de Dança, por telefone, na semana passada, Kylián, aos 68 anos, conta que o ponto de conexão da Noite é sua assinatura. Além de dividir particularidades sobre as obras, refletiu sobre a vida. Essas são daquelas entrevistas que fazem com que o jornalista tenha certeza da escolha da sua profissão, sobretudo porque o entrevistado deixa claro que a dança é sempre maior do que podemos imaginar. Confira os melhores trechos.

Em 2010, quando te entrevistei pela primeira vez, perguntei por que você coreografava tanto. Você disse que era porque o movimento não cabia mais dentro de você. Cinco anos depois, olhando novamente para os números, vejo que chegou a criação número 100…
Acho que é tempo de parar. O que você acha? Será tempo de parar? Não! (risos) Eu vou criar enquanto puder, enquanto encontrar bailarinos para isso. Ao passar dos anos, a nossa relação com a dança muda, quando somos jovens queremos a fisicalidade, depois vem a maturidade, a morte. A gente vê que a dança é boa e a relação que temos com ela também. Eu preciso da dança para viver. Ficar sem criar é a minha morte.

Vida e morte. É um tema recorrente nas suas obras.
Sempre gosto de falar sobre o amor e a morte, essas são as tônicas das minhas coreografias, mas a vida habita o intervalo. Precisamos olhar para ela. Se formos pensar, a nossa relação com a vida é de amor e morte, só que nem todas as pessoas podem amar ou serem amadas o tempo todo, isso só acontece em alguns momentos, é como em Petite Mort, quando captamos um único e especial momento entre um homem e uma mulher, que é o orgasmo feminino, uma pequena morte.

Petite Mort é um obra que fala sobre esse desejo carnal, mas 

dançá-la é um dos maiores desejos dos bailarinos.
Eles realmente gostam? (risos). Petite
é difícil, parece fácil, mas não é. O bailarino precisa de uma grande concentração durante toda a obra, ele tem que se contorcer e dialogar com a música de Mozart. Ela tem uma brincadeira do aparecer e desaparecer, mas precisa que todos estejam em sintonia para perceber as pequenas mortes da vida que aparecem durante toda a coreografia. Não é uma peça na qual se pode só dançar…

Essa relação do aparecer e desaparecer, também está presente em Sechs Tanze.
Petite Mort e Sechs Tanze integram o meu programa Black & White (Preto & Branco), formado por seis obras (Falling Angels, No More Play, Sarabande, Petite Mort, Sechs Tanze, Sweet Dreams) e eu realmente me inspirei nas músicas para criar todas as coreografias. Mozart me inspira, me conecta. Eu queria mostrar um contraste de movimento entre uma obra e outra, mas também estabelecer conexões, as grandes saias que as bailarinas vestem transformando o seu corpo e o espaço, os floretes… O que fiz questão de não colocar foram as cores. O que eu queria e quero a cada vez que essas obras são apresentadas é que o público termine a pintura, que escolha as cores da cena. É como aquele desenho de criança que tem só o contorno e ela deve pintar o miolo. São as cores da vida, que também aparecem e desaparecem ao longo do dia, e é a gente quem coloca.

Sechs Tanze faz uma crítica à burguesia, aos valores da época, mas tenho uma curiosidade: Por que as bolhas de sabão ao final? O que elas significam?
Champanhe! (risos). Eu me inspirei na Champagne Aria, da ópera Dom Giovanni, de Mozart (ele canta), que também mistura seriedade e humor. Hoje as pessoas querem beber para, muitas vezes, ter alegria, tudo parece uma brincadeira. Não gosto muito dessas coisas na minha vida. Sou muito grato àqueles que hoje me dão uma razão para sorrir. A vida nos coloca máscaras, muitas vezes para fingir o que somos e outras para fazermos coisas que, sem elas, não teríamos coragem. No balé elas são irônicas, mas a fantasia nos protege.

Birth-Day, de 2001, tem o mesmo figurino de Sechs Tanze e também mistura dança e humor. Elas tem alguma conexão? O trecho em vídeo que a SPCD exibe é The Kitchen Scene, (Cena da Cozinha)…
Uma coisa de que temos certeza na vida é a morte. Para mim, a cada aniversário estamos mais perto dela. Só fiz esse vídeo para ser engraçado, é só uma brincadeira. A Sabine Kupferberg que é a bailarina da cena da cozinha sempre me lembra algo de Charlie Chaplin (1889-1977). E você sabe que ela é minha esposa, né? (risos). E o Gérald Lemaitre é muito cômico. Eu quis juntar isso em uma cozinha para preparar um bolo de aniversário nesta cena em especial. Quando terminamos de gravar, eles não queriam tirar o figurino! Não tem nada de conceitual, é bem simples na verdade, acho que como todas as minhas obras.

Indigo Rose equilibra o contraste de uma movimentação mais rápida e quebrada, com outra mais suave e fluída. Como foi essa criação para o NDT II?
Eu tinha bailarinos incríveis na companhia jovem naquela época. Eles tinham uma potencialidade técnica maravilhosa e estavam em

um momento de transição. Quando ainda se está na escola de dança, a carreira profissional é um objetivo, as ideias ainda são puras, mas quando se entra em uma companhia começam as desilusões, ou seja, não existe perfeição em nenhum lugar. Nem sempre quando começamos uma obra conseguimos ir até o seu fim com a ideia inicial, as coisas mudam porque o material humano com o qual você trabalha também muda e quis mostrar isso para eles, o que não pode mudar é o brilho nos olhos e a positividade diante da vida, e só o coração pode tocá-la. Indigo Rose revela isso, índigo é azul e rosa é rosa. Nunca existirá um índigo rosa. Com relação às diferentes movimentações, eles eram jovens e eu me apoiei nas escolhas musicais para isso, eles precisavam disso naquele momento.

Você usa quatro compositores desta vez.
Sim. Exatamente por serem jovens, também queria mostrar uma diversidade musical e usei quatro ícones de diferentes tempos: Robert Ashley (1930-2014); François Couperin (1668-1733), John Cage (1921-1992) e Johann Sebastian Bach (1685- 1750). Queria que o corpo respondesse à música para que os bailarinos encontrassem diferentes expressões na sua dança. Posso até ser criticado porque é eclético demais, mas não ligo. Essa peça conecta energia e juventude e eu gosto disso, por isso é interessante abrir as noites de espetáculo com ela.

E se em Petite Mort você usa um pano para revelar os intérpretes, nesta obra você corta a cena com uma cortina de seda branca que projeta as sombras dos bailarinos e altera o seu tamanho.
Isso é simbólico. A vela que corta uma dialogal da cena é a vela de um barco, que, inspirado pelo poema A Vela, do russo Mikhail Lermontov, coloquei no balé. As sombras dos bailarinos projetadas na vela mostram que às vezes somos maiores ou menores do que pensamos e o poema questiona o que deixamos para trás e qual o nosso próximo destino. Bailarinos sempre vão de um lugar para o outro. A dança é assim. (Leia o poema aqui: http://www.poetryloverspage.com/poets/lermontov/sail.html)

O que você falaria para os bailarinos que vão dançar essa “sua” noite?
Ah! Mas eu vou escrever para eles no dia da estreia. É claro! Sempre faço isso. Mas eu diria que temos que fazer o que a gente mais gosta para encontrar o prazer de viver. Se você gosta de dançar, dance o melhor que puder. Se você, por exemplo, gostar de escrever, escreva o melhor texto que puder. Só faça algo se for fazer direito. Tenho certeza de que eles irão fazer. Agora é aproveitar.

Foto: Wilian Aguiar

O humor ácido de Sechs Tanze
Foto: Wilian Aguiar

Cena de Litoral 

Ao todo, são três semanas seguidas de temporada, com sete obras diferentes. Uma chance de o público se aproximar da dança e reconhecer diferentes formas da dança. “Nesse sentido, essa temporada de três semanas permite um diálogo do público com a companhia e congrega um espaço privilegiado para refletir a dança”, diz Inês Bogéa.

Serviço:

Teatro Sérgio Cardoso, R. Rui Barbosa, 153, Bela Vista. Tel. 3288-0136 . De 04 a 28 de junho, qui. e sáb, 21h, sex., 21h30, dom. 18h. R$ 30 e R$ 15 (meia) | Livre

Diálogos da dança

Jirí Kylián talvez seja, entre os coreógrafos contemporâneos, aquele com a capacidade mais ampla de mudança. É o fio de uma assinatura de muitos dizeres, nunca superficial, o que ele coloca em cena, sem jamais perder a clareza. Indigo Rose, coreografia que a São Paulo Companhia estreia na inédita Noite Kylián de um grupo brasileiro, trata, a seu modo, de ilusão, desilusão, desafios e persistência, e o movimento é a moeda precisa e intrincada. É a primeira semana da temporada que segue até dia 28 de junho, com outros dois programas distintos.

“Indigo Rose é extremamente difícil de dançar. Não tem momentos de grupo, quase sempre são solos, duos ou trios”, diz Amos Ben-Tal, remontador da obra e integrante da estreia mundial como bailarino do Nederlands Dans Theater II. A noite se completa com Petite Mort e Sechs Tanze.

 

Inês Bogéa, diretora artística do grupo, afirma que Indigo acrescenta aos bailarinos “rapidez e flutuação no espaço” e também carrega, a seu modo, humor e beleza plástica, dialogando, assim, com as duas outras obras do programa Petite Mort e Sechs Tanze.

No ano em que o tema Corpo no Mundo sugere criações e guia as escolhas artísticas, a segunda semana da temporada celebra a latino-americana com obras feitas especialmente para a companhia paulista. Nessa noite, lado a lado, as coreografias de Jomar Mesquita, Mamihlapinatapai (2013), com colaboração de Rodrigo de Castro; Cassilene Abranches, GEN (2014); e a estreia de Litoral, de Maurício Wainrot.

Por fim, o clássico do balé romântico coreografado pelo argentino Mario Galizzi, a partir do original de August Bournonville (1805-1879), La Sylphide.