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Dançar, e depois?

Por Amanda Queirós
Uma história parece se repetir: bailarino talentoso deixa o estudo formal de lado para ingressar, ainda bem jovem, em uma companhia. Perto dos 40 anos, diante da aposentadoria iminente dos palcos, com um corpo que não responde mais como antes, ele é obrigado a se perguntar: e agora?Semelhante ao de um atleta, o prazo de validade deste profissional acaba justamente quando ele alcança maturidade e ainda tem força de trabalho para um cargo que não exija horas seguidas de esforço físico. Não é raro, por exemplo, ver alguns deles empurrados para uma nova carreira devido a um machucado – quanto mais velho, mais lenta e dolorosa é uma recuperação integral.

Foto: divulgação

Sílvia Machado

Foi assim, por exemplo, que Silvia Machado, 49, descobriu a fotografia. Após largar a graduação em Terapia Ocupacional para ser bailarina, ela fez carreira no Balé da Cidade de São Paulo. Em 2001, uma lesão no quadril a forçou a parar por um tempo. Impedida de dançar, ela batia ponto assistindo aos ensaios do grupo. Em um deles, um amigo lhe ofereceu uma câmera para que fizesse algumas fotos. Desde então, não parou mais.

Silvia chegou a retomar a rotina de bailarina, mas logo desistiu – a fotografia a pegou de jeito. “Já estava mesmo com uma idade em que começava a pensar em parar de dançar”, diz. De 2004 a 2009, permaneceu na companhia, mas dedicada exclusivamente às fotos e à divulgação das peças, além dos cuidados com o arquivo do grupo. Em paralelo, passou a ser chamada para registrar espetáculos de outros grupos. Hoje, é uma das principais fotógrafas de dança de São Paulo, nicho que ainda detém poucos profissionais. “Muita gente fica mal e frustrada quando para. Eu não. Sempre busquei outras coisas. Fiz curso e cheguei a trabalhar com massagem terapêutica enquanto era bailarina. Poderia viver disso, mas não era algo que supria a alma.”

Foi também uma lesão que determinou a mudança de rumos na vida de Sílvia Soter, 48. Para ela, no entanto, o momento veio bem cedo. Integrante da primeira formação da companhia carioca Vacilou Dançou, na década de 1980, ela machucou o quadril aos 20 anos. “Ao buscar abordagens alternativas para me cuidar, aproximei-me de métodos de educação somática. Isso me encantou, e quis trabalhar mais nessa questão da prevenção do que como intérprete”, diz.

Foto: Antonio Pessoa

Sílvia Soter

Após um longo período de formação, hoje ela é professora do Departamento de Didática da Faculdade de Educação da UFRJ, mas segue também atuando como dramaturga da Lia Rodrigues Companhia de Danças e coordenadora da área de cultura da Redes de Desenvolvimento da Maré, no Rio. “Confesso que meu caminho profissional não passou por uma decisão racional. Mas digo que sou um exemplo de formação continuada. Não parei de fazer cursos e continuei ligada à dança”, pontua.

Foto: Claudio Etges

Sayonara em Estas canções, de 1982

Sayonara em Estas canções, de 1982

Bejani em A bela adormecidaBejani em A bela adormecida

Daniela Cardim em cena como Carabosse em A bela adormecidaDaniela Cardim em cena como Carabosse em A bela adormecida

Quem consegue seguir os anos como bailarino sem uma interrupção abrupta pode (e deve) planejar a transição para que ela se dê da forma menos traumática possível. Um bom exemplo é a trajetória de Sayonara Pereira, 52. Ao completar 40 anos, depois de uma prolífica carreira de duas décadas como bailarina de dança-teatro na Alemanha, ela percebeu ser hora de buscar novos ares.”Tive uma experiência maravilhosa de acompanhar a dança teatral ainda se firmando, nos anos 1980. Queria me especializar e pensei no Brasil como um lugar para onde eu pudesse voltar para dialogar”, afirma.O primeiro passo, ainda na Alemanha, foi fazer uma graduação em pedagogia da dança. Com dupla nacionalidade, conseguiu uma bolsa daquele país para fazer mestrado na Unicamp, em 2004. Emendou um doutorado e, depois dele, um pós-doutorado. Em 2009, tornou-se professora titular do Departamento de Artes Cênicas da Escola de Comunicações e Artes da USP.

Foto: divulgação

Sayonara Pereira

Sayonara Pereira

“Não foi algo que decidi da noite para o dia. Montei toda uma carreira que demorou oito anos para se concretizar em emprego. Quando comecei, ainda não havia esse boom da pesquisa acadêmica em dança, mas eu percebia que o espaço de trabalho seria fértil”, diz ela.

Foto: divulgação

Susana Yamauchi

Susana Yamauchi

Já a experiência de Susana Yamauchi, 55, demonstra a importância de um bailarino desenvolver habilidades em paralelo à carreira nos palcos. Desde cedo, ela também ensinava e já coreografava, instigada por workshops de criação da companhia na qual dançava, o Balé da Cidade de São Paulo.

“Naquele momento, vi que precisava de formação. Passei a criar para diversas companhias e isso foi sedimentando meu conhecimento”, diz. Fez cursos em Nova York com Jennifer Muller, Paul Taylor e Merce Cunningham (1919-2009), entre outros, e, com o tempo, sentiu a necessidade de ter um grupo próprio para que pudesse desenvolver um trabalho mais autoral. Assim surgiu o Ludicadança. “Tentei estabilizar outro desejo que era o de gestão, de estar à frente de projetos a longo prazo.”

Sem se dar conta, a vivência a credenciou para ocupar seu cargo atual, diretora da antiga Escola Municipal de Bailados, agora renomeada como Escola de Dança de São Paulo. “Cada vez mais, o bailarino é requisitado a ter conhecimento amplo. Sua experiência profissional precisa ser aprofundada em outras áreas”, explica ela.

Aos 38 anos, Daniela Cardim passa exatamente agora por seu momento de transição. Ela, que dançou e coreografou por onze anos no Ballet Nacional da Holanda, decidiu investir em uma graduação. Influenciada por sua atuação como presidente da associação de funcionários da companhia, ela estuda hoje administração de artes em Londres financiada por um programa holandês chamado Retraining for Dancers.

O esquema funciona assim: todo bailarino profissional contribui automaticamente com uma parte de seu salário ao projeto. Ao fim de dez anos, ele tem direito a ter os estudos pagos para mudar de profissão e se reinserir no mercado. “Sabendo desse apoio, foi mais fácil tomar a decisão de parar. Sei que parei na hora certa e não me arrependo. Mas, às vezes, sinto falta do palco. A gente para de dançar, mas não para de ser bailarino”, diz Daniela.
Foto: Angela Sterling

Daniela Cardim

Daniela Cardim

Programas de requalificação profissional como esses também existem em outros países. Nos Estados Unidos, há o Career Transition for Dancers, criado em 1985, que viabiliza parcerias entre companhias e universidades. A iniciativa, por sua vez, foi inspirada no Dancers Resettlement Trust, criado pelo governo britânico em 1973 com o mesmo fim.

No Brasil, o que mais se aproximou dessas experiências foi uma parceria, realizada na década passada, entre o Balé do Theatro Municipal do Rio de Janeiro (BTMRJ) e a Universidade da Cidade, idealizada por Roberto Pereira (1965-2009), então professor da instituição. O objetivo era colocar bailarinos tarimbados da companhia na faculdade para que eles pudessem encerrar suas carreiras no palco também com um diploma de nível superior em dança nas mãos.

Ex-primeiro-bailarino da casa e hoje diretor artístico do BTMRJ, Hélio Bejani, 52, foi um dos que participaram da experiência. Apesar de ter estudado engenharia, faltava-lhe um diploma. Na época do curso, já havia parado de dançar e atuava como ensaiador e coordenador da Orquestra Sinfônica – ele também tem formação musical. “Quando surgiu o projeto, passei para a coordenação do Balé. Minha ideia em fazer a graduação era ter respaldo para aquilo que estava fazendo. Afinal, o conhecimento é o maior bem que você tem”, afirma.

Atualmente ele busca retomar a parceria, mas vê certa resistência do corpo de baile. “O balé, infelizmente, é imediatismo. A carreira é curta e o bailarino quer tudo agora, já. Mas, tendo quórum, a gente faz. Foi um projeto fantástico.”

Foto: divulgação

Hélio Bejani

Hélio Bejani

Outro exemplo recente é a São Paulo Companhia de Dança que criou o Programa de Desenvolvimento das Habilidades Futuras do Artista da Dança (PDHFAD)

À Revista de Dança, Sayonara Pereira afirmou apoiar a criação de uma iniciativa nacional de requalificação. “Gostaria muito de estar perto quando isso surgisse. Passei por isso, meus amigos também. Vi alguns ficarem praticamente sem pai nem mãe. É um processo meio duro e seria importante que a classe pensasse nesse logo depois.”