Entrevista

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Forsythe: arquiteto do gesto

 
Production: Where do you
want us to put the cherries?

Forsythe: In the middle!
Production: But where in the middle?
Forsythe: In the middle, somewhat elevated
Por Marcela Benvegnu
Nesta semana, aqueles que quiserem assistir a um trabalho de William Forsythe, na Europa, têm algumas opções, Stellentstelen, pode ser vista em Dresden; Five duets, em Frankfurt. O que lá é comum, aqui no Brasil, hoje, às 21h, no Teatro Alfa, é inédito. Pela primeira vez na América Latina, uma companhia brasileira – a São Paulo Companhia de Dança – apresentará uma peça do coreógrafo americano. A escolhida foi In the middle, somewhat elevated (1987), uma encomenda de Rudolf Nureyev (1938-1993) para o Ballet Ópera de Paris (leia mais detalhes na matéria desta página). Em entrevista à Revista de Dança, Forsythe conta um pouco sobre o processo de criação desta peça, deixando nítida sua forma de arquitetar gestos e o modo como renovou a dança clássica. Confira os melhores trechos.

Como é para você ter este trabalho no repertório de uma companhia brasileira pela primeira vez?

Forsythe: Meu trabalho, que é muito visto na Europa, agora pode finalmente ser visto e dançado no Brasil. Acho os brasileiros muito sensíveis e sei que o elenco tem ido bem. Minha remontadora (Agnés Noltenius) disse que eles são incríveis fazendo o meu estilo, e ela teve uma grande empatia com a companhia. Isso é fantástico.

Foto: reprodução

William Forsythe, um dos maiores nomes da dança da atualidade

William Forsythe, um dos maiores nomes da dança da atualidade

E como deve ser o olhar de um remontador nas suas obras?

Forsythe: Todos os meus remontadores trabalharam comigo por anos. Eles tentam fazer o meu melhor, um pouco do que eu faria. A função do remontador é fazer o movimento ter sentido para os bailarinos. Como eles dançaram comigo por anos, conseguem fazer isso de uma forma harmônica. É importante que seja bem-feito porque devem fazer escolhas importantes.

Como a escolha do elenco….

Forsythe: (risos) Escolhas de elenco são sempre complicadas. É a parte mais difícil, um desafio. Agnés escolheu o elenco no Brasil, mas isso é sempre negociação porque a direção indica uma coisa, o remontador às vezes quer outra e o coreógrafo quando vê acha que poderia ter sido diferente. Tem uma mistura de vozes. Acho que é a parte mais difícil, mas geralmente funciona. Tem funcionado.

O convite para a montagem de In the middle, somewhat elevated para a Ópera de Paris foi feito por Nureyev…

Fosythe: Sim! Sim! Sim! Foi simplesmente maravilhoso. Primeiro que um convite dele já é algo espetacular e depois porque tive um elenco de primeira. Os bailarinos faziam tudo e mais um pouco, com muita facilidade. E trabalhar com a Sylvie Guillem, coreografar para ela, para o seu corpo, foi para mim uma grande experiência.

E a inspiração para esta criação, como aconteceu?

Forsythe: A coreografia segue a fórmula do tema e de suas variações. Tem uma bailarina que desenvolve frases de movimento arquitetadas com a música e aciona outros corpos que se cruzam e preenchem o espaço durante toda a coreografia. O pas de deux, por exemplo, é uma variação de dança, dentro da própria coreografia. Eu gosto desta estrutura, é visual e funciona bem. Claro que a música me

Fotos: Silvia Machado

Aline Campos e Ed Louzado, coreografia exige musicalidade Aline Campos e Ed Louzado, coreografia exige musicalidade

 

Os bailarinos Morgana Cappellari e Norton Fantinel em ensaio da peçaOs bailarinos Morgana Cappellari e Norton Fantinel em ensaio da peça

 

A bailarina Aline Campos em ensaioA bailarina Aline Campos em ensaio

 

Os movimentos partem do clássico e vão para a extremidade dos corpos. Em cena, Morgana CappellariOs movimentos partem do clássico e vão para a extremidade dos corpos. Em cena, Morgana Cappellari

 

Em destaque, a bailarina Luiza Lopes. Em destaque, a bailarina Luiza Lopes.

 

A coreografia segue a fórmula do tema e de suas variaçõesA coreografia segue a fórmula do tema e de suas variações

permitiu esse tipo de organização, sem ela seria diferente. As sequências partem da dança clássica para as extremidades do corpo com movimentos angulares em diferentes fluxos, não tem segredo.

Você tem uma inspiração forte em George Balanchine (1904-1983).

Forsythe: Sem dúvida. Ele foi a minha escola. Foi como aprendi a ver dança e, sobretudo, a coreografar.

O que é preciso ter para dançar esta peça?

Forsythe: Para dançar meus trabalhos é preciso, antes de saber o passo, entender a música. Esta peça parece simples por ser escrita em quatro compassos, o que facilita a contagem, mas é muito difícil porque brinco muito com a velocidade. É preciso ter síncopa, ter swing. O elenco brasileiro está no caminho certo.

Existe alguma relação das cerejas penduradas na cena com a estrutura da obra?

Forsythe: Não. Na Ópera de Paris tem muitas coisas de ouro penduradas, eu achava aquilo lindo demais e queria um cenário cheio de adereços suspensos e brilhantes. Tentei de tudo, mas nada dava certo. Aí inventei duas cerejas pequenas com espelhos que podem refletir a luz e, ao mesmo tempo, a plateia. Era o que tinha de mais simples naquele momento porque, confesso, já estava um pouco cansado dos testes. Sem contar que não dava mais tempo de pensar em outra coisa porque tínhamos que definir tudo para a estreia. Num ensaio, a produção veio me perguntar onde eu queria pendurar as cerejas, eu disse que poderia ser no meio. Eles perguntam novamente: no meio, mas onde? E eu respondi. No meio, um pouco acima (In the middle, somewhat elevated). Foi dessa brincadeira que nasceu o nome da coreografia.

Você falou da música, do cenário. E o figurino?

Forsythe: É simples como o cenário. Os figurinos são meias pretas por fora dos collants verdes. Na época, dei a liberdade para as bailarinas escolherem modelos diferentes, que ficassem melhor no corpo delas. Assim elas iam ficar felizes. Um é de manga comprida, outro curta, um tem um decote maior do que o outro. E, apesar de diferentes, tem uma unidade.

Qual foi a sua reação quando viu este trabalho pronto pela primeira vez?

Forsythe: Eu sempre assisto aos meus trabalhos e sempre acho que poderia ter sido melhor. Na verdade, os vejo toda noite, em diferentes palcos e dançados por muitas companhias diferentes, mas sempre tenho esta sensação. O que poderia ter feito de diferente e como seria. É estranho para mim. Eu sou um trabalhador da dança, um worker.

E o que te move a coreografar?

Forsythe: A alma do bailarino. Quando entro na sala de ensaio, entro vazio. Não espero nada deles, eles me dão e trabalho. É menos frustrante e com certeza funciona melhor. Quando eu recebo a surpresa, empolgo-me e o movimento sai.

Seus trabalhos ganharam o mundo, você é um dos maiores nomes da dança… O que ainda falta?

Forsythe: Falta tempo para brincar com os meus netos. São dois.

E ter tempo para brincar com eles significa menos tempo para dança?

Forsythe: Ah! Não vale (risos). Não é menos tempo para dança não, eu só quero brincar mesmo e sem parar de dançar.

Você tem algum um recado para os bailarinos brasileiros?

Forsythe: Diga para eles somente dançarem, o movimento já está aí e será uma estreia ótima.

Matemática do corpo

Por Flávia Fontes Oliveira

A São Paulo Companhia de Dança estreia hoje In the middle, somewhat elevated (1987), de Willian Forsythe. A peça, criada para a bailarina Sylvie Guillem e outras estrelas do Balé da Ópera de Paris, carrega todos os traços deste que é considerado um dos maiores nomes da dança na atualidade: velocidade, precisão, força, impulso nos movimentos e musicalidade.

Agnés Noltenius, a remontadora da obra, está em são Paulo há cinco semanas para cuidar da coreografia. Um trabalho delicado, segundo ela, porque deve enxergar com os olhos do criador, mas sem deixar sua postura de lado. É a primeira vez que uma companhia latina apresenta uma obra de Forsythe, e a peça escolhida é divisora de águas, como sugere a remontadora. In the middle conserva a tradição clássica, mas a apresenta com novas exigências físicas ao explorar o corpo em novos desenhos e mais desequilíbrios.

Forsythe como George Balanchine (1904-1983, um dos fundadores do New York City Ballet) representa uma ponte entre o passado e o futuro. Suas obras dialogam com a herança desta arte e sinalizam rupturas. Na sua habilidosa matemática dos corpos, Forsythe tem como uma de suas maiores

fontes justamente Balanchine (veja entrevista nesta página). Este criador russo já explorava novas linhas no começo do século 20 e ainda é um desafio para bailarinos. A SPCD já dançou três de seus balés, Serenade (1934), Theme and variations (1948) e Tchaikovsky pas de deux (1960).

Para a diretora da companhia, Inês Bogéa, dançar Forsythe representa um momento especial do grupo e mostra o amadurecimento dos bailarinos. “Depois de mais de quatro anos de existência, a companhia está pronta para dançar a obra de um grande mestre da atualidade. É uma honra para nós podermos encenar este balé”, diz. Ela ainda lembra que, além de Balanchine, os bailarinos já dançaram Polígono (2008), de Alessio Silvestrin, e Os duplos (2010), de Maurício de Oliveira. Ambos ex-bailarinos de Forsythe. Com propostas diferentes, os dois ampliam as possibilidades do corpo e, com caminhos distintos, alimentaram o amadurecimento do elenco.

Para completar o programa, A SPCD traz outros dois trabalhos de importantes nomes da cena nacional e internacional, Sechs Tänze (1986), de Jirí Kylián, e Bachiana n°1, de Rodrigo Pederneiras./div>