Legado

Redigida em:

O sunset bloulevard das vedetes brasileiras

 

 
Olga Bolenska: adolescência passada em salas de aula de balé Olga Bolenska: adolescência passada em salas de aula de balé
 
Olga puxa da gaveta o álbum de fotos de seus espetáculos nos anos 1940Olga puxa da gaveta o álbum de fotos de seus espetáculos nos anos 1940
Fotos: acervo dos artistas e Alexandre Staut
Vitoria Regia (segunda á esquerda), que recebeu o título de “vedete malícia”Vitoria Regia (segunda á esquerda), que recebeu o título de “vedete malícia”

A rua Nair Bello é estreita, tem casinhas pequenas e coloridas dos dois lados. É bem cuidada, seus jardins atravessam parte do Retiro dos Artistas, residência criada em 1918, no Rio de Janeiro, na qual residem 50 artistas – entre circenses, atores e atrizes, bailarinos, cineastas e técnicos de palco – em pequenas moradias, com sala, quarto, banheiro e uma pequena cozinha. Ao redor das ruas ficam pavilhões que funcionam como enfermaria, biblioteca e salão de cabelereiro, além do Butikim das Estrelas, de uma sala de cinema batizada com o nome do cineasta Eduardo Coutinho e de um teatro.

Nem parece que estamos no centro do movimentado bairro de Jacarepaguá. O lugar é silencioso, lembra as cidades do interior do Brasil perdidas no mapa. Neste cenário de filme, ao ver um visitante, os moradores saem nas pequenas áreas de suas residências. Sorriem. Estão sempre dispostos a um dedo de prosa, memórias de espetáculos e filme dos quais participaram em décadas remotas. Não é diferente com as vedetes que moram ali e seu passatempo predileto: relembrar de um tempo em que o Brasil se curvava aos seus pés.

 

Olga na sala de aula: uma vida dedicada à dança

Olga na sala de aula: uma vida dedicada à dança

No lugar encontramos Olga Bolenska, bailarina carioca de 80 anos, que aprendeu a dançar com Vaslav Veltchek (1896-1967). Para não deixar dúvidas, ela firma sua mãos na bengala que passou a usar nos últimos anos e chama a reportagem da Revista de Dança para dentro de sua casa. Na sala, como num altar, está a foto do bailarino tcheco com dedicatória à aprendiz. Ao lado, fotos da bailarina aos 15 anos; em uma barra de exercícios; na capa da revista Manchete, em 1954, com outras garotas; no musical Night and day (anos 1940) e ainda em uma coreografia de nome perdido nas lembranças.

Olga apanha um álbum de fotos, folheia as páginas, enquanto reaviva a memória, ao ver recortes de jornal com seu nome estampado, além de uma imagem em que beija o músico Dick Farney (1921-1987), com quem ela foi casada. Depois, aponta o dramaturgo Walter Pinto (1913-1994) e Carlos Machado (1908-1992). O primeiro, um dos mais importantes nomes do teatro musicado do Brasil, revelou uma geração de atores, músicos e compositores, entre os quais Dercy Gonçalves (1097-2008), Carmen Miranda (1009-19550 e Assis Valente (1911-1958); o segundo, produtor de musicais no formato de teatro de revista, gênero apreciado pela nata da sociedade carioca dos anos 1940 a 1960, homem capaz de reunir ao seu redor os melhores músicos, cenógrafos, coreógrafos, atores e belas bailarinas, além das vedetes, que marcaram uma época no mundo do teatro e da dança no Brasil.

“Trabalhei com Walter e com o Carlos em muitos espetáculos. Apesar de ter formação clássica e de dançar desde os oito anos na ponta da sapatilha, acabei participando de shows mais populares, de teatro de revista, a forma mais fácil de sustentar-se na época”, diz ela, que trabalhou até se casar com Dick, em meados dos anos 1950, tempo em que as vedetes reinavam nos palcos da capital nacional de então. Há seis anos no Retiro, Olga passa seu tempo lendo romances espíritas e convivendo com outros artistas.

 

Victoria Regia: a praça Tiradentes, no Rio, era a Broadway brasileira

Victoria Regia: a praça Tiradentes, no Rio, era a Broadway brasileira
Naqueles tempos, as estrelas dos espetáculos no País não eram celebridades da TV, mas as vedetes, mulheres bonitas, muitas delas bailarinas talentosas, que superaram os preconceitos da época, apresentando peças cômicas, com canções de duplo sentido. Virgínia Lane (1920), Salomé Parísio (1921), Elvira Pagã (1920-2003), Luz Del Fuego (1917-1967), são alguns exemplos famosos. Para uns, moças escandalosas, que dançavam com as pernas de fora, para outros, pioneiras do feminismo, contribuindo para a conquista da emancipação feminina não só no meio artístico, mas na sociedade brasileira de forma geral.

 

Bolenska na área de sua casa, no Retiro

Bolenska na área de sua casa, no Retiro

Enquanto conta suas aventuras pelos palcos do Rio de Janeiro, das dezenas de apresentações que fazia numa única semana, Olga suspira. “A impressão que tenho é que, hoje, o teatro está muito chique, as peças musicadas são bem feitas, mas o meio teatral perdeu um pouco da magia, da inocência, da alegria”. Da área de sua casa, ela aponta a moradia de uma antiga colega de palco e atual companheira de asilo. Victoria Regia, 79, abre sorriso ao ver a reportagem. Quando é abordada para a entrevista, todavia, diz que não pode falar. “Hoje é dia de cabeleireiro, preciso pegar lugar na fila, quero um novo corte”, diz, mas concorda dar entrevista na cadeira do salão. “Era muito bonita, sabia dançar, trabalhava diariamente no Café Concerto, na boate Acapulco, ambos em Copacabana. Acabei fugindo de casa para dançar, naquela época bailarina era considerada prostituta no Brasil. Eu era menor e tive que voltar para a casa e implorar para meus pais me emanciparem. Como eles não podiam comigo, assinaram a papelada e eu vim para o Rio tentar a carreira artística”, diz.

Na capital nacional, a mulher de belas curvas acabou fazendo sucesso nas pequenas casas de concerto da Praça Tiradentes, a Broadway brasileira dos anos 1940 e 1950, conforme ela conta. “Gostaram do meu tipo: morena, de pernas e seios fartos”, diz, entre risos. “Recebi apelido de ‘Vedete Malícia’”, relembra. Victoria acabou se transformando numa estrela após o sucesso da peça Bibibi no Bobobó, de autor desconhecido, uma peça “fogo no pandeiro”, nas suas palavras. A vida no palco fez com que conhecesse Fernando Barreto, cantor lírico do Theatro Municipal. “Acabamos nos casando, parti com ele para Portugal numa turnê e comecei a trabalhar em Lisboa como vedete”, relembra a artista que estreou mais de quatro mil textos entre as décadas de 1940 e 1960.

“Na volta ao Rio, do navio, pude ver com emoção o público me aguardando, do cais do porto. Nunca me esqueço da cena. Arrepio só de lembrar. No dia seguinte, a surpresa: minha foto estava estampada em cinco jornais da cidade”, relembra. “As lembranças desta época são boas, havia camaradagem no meio artístico. Havia vaidades, mas nem tanto como a gente vê hoje em dia.” No Retiro, chegou a criar uma peça em estilo teatro de revista em companhia de outras vedetes que moravam ali e já morreram, Nelia Paula (1930-2002) e Paulete Silva (1930-2000).

 

Claire Digon: uma das diversões no Retiro dos Artistas é a reunião dos moradores para desfilar memórias de um tempo perdido

Claire Digon: uma das diversões no Retiro dos Artistas é a reunião dos moradores para desfilar memórias de um tempo perdido
Enquanto Victoria conta as suas aventuras, a atriz e bailarina carioca Claire Digon, vizinha de rua, aproxima-se e diz que uma das diversões das moradoras é a reunião no lugar. Com cadeiras nas calçadas, as artistas se reúnem quase sempre a tarde para desfilar memórias de um tempo em que o Brasil dançava mais nas ruas e nos palcos, como ela diz. “Um dia fomos míticas”, brinca, apontando, em seguida, a casa de outras moradoras do Retiro. “Ali, moram duas lendas do teatro de revista, a vedete portuguesa Saluquia Carmelinda Arjona e Isa Rodrigues, esta conhecida como a Shirley Temple brasileira.”Claire leva a reportagem da esquina em que funciona o salão de cabeleireiros para a rua Nair Bello. Batemos palmas na frente da casa de Saluquia. Por uma fresta, ela diz que não concede entrevistas. “Não tenho nada mais a dizer. Quero tranquilidade.” Fecha a porta e, mais do que depressa, reabre-a novamente. “Não me entendam mal. Estou padecendo de uma crise de labirintite”, desculpa-se. “Vá à casa de número 10 e procure a Isa. Ela sim é boa de história”.

 

Isa Rodrigues: título de Shirley Temple dos trópicos

Isa Rodrigues: título de Shirley Temple dos trópicos

Quatro casas adiante, encontramos Isa Rodrigues de penhoar. Ela resiste a falar sobre a carreira. Depois volta atrás e diz que concede entrevistas contanto que haja sessão de fotos. Ela coloca óculos de sol grandes e nos convida a entrar na sua sala, um espaço cheio de bibelôs, vasos com flores de plástico, abajures e fotografias espalhadas pelas paredes. Numa delas, Isa aparece ao lado da colega Dercy Gonçalves. “Ah, época boa”, diz a artista que reside no retiro há oito anos. Ela aponta outra foto em que está ao lado do ator hispano-brasileiro Oscarito (1906-1970). Canta um trecho de No tabuleiro da baiana, de Ary Barroso (1903-1964), levantando os braços em trejeitos típicos de Carmen Miranda. “Cheguei a estrear uma peça junto do Oscarito e do Ary Barroso, mas do nome não me lembro mais.” Como vedete, chegou a ser estrela da companhia de teatro de revista Recreio. “Comecei a atuar e a dançar aos oito anos de idade. Foram décadas e mais décadas de trabalho, em que conheci quase todos os artistas dos palcos Brasil afora. Me lembro da Carmen Miranda no Cassino da Urca, das festas do mundo artístico, das estreias da Praça Tiradentes, dos jantares a governadores em que era convidada a dançar, dos bailes… era um tempo de felicidade”, conta. “Naquela época, o meio teatral era agitado. O Rio de Janeiro vivia seus tempos áureos. Embora houvesse muito preconceito com as mulheres que trabalhavam nas artes do palco, havia grande quantidade de gente que nos aplaudia. Hoje, quando penso na minha profissão, percebo que, junto das colegas que moram aqui na rua, abrimos caminhos aos artistas que estão aí fazendo sucesso hoje, atrizes, bailarinas etc”, enumera. “Hoje a vida é tranquila, sem glamour, apenas algumas visitas. Os aplausos agora são para os mais novos, as belas atrizes da TV, as cantoras, dançarinas”, diz sobre seu ocaso. “Uma coisa que aprendi na vida foi que tudo tem seu momento. O meu já se foi. Agora é importante que se respeite e reverencie os novos talentos. Um dia, suas luzes também vão se apagar. E aí chegam novos nomes”, diz ela, com olhar perdido nas fotos pregadas na sua parede, antes de se despedir dizendo que perdeu a conta das centenas de peças que estreou nos palcos do Rio de Janeiro.

 

Isa Rodrigues participa de um programa de TV com a amiga Dercy Gonçalves

Isa Rodrigues participa de um programa de TV com a amiga Dercy Gonçalves