Entrevista

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Multiartista do movimento

Por Ana K. Rodrigues

A trajetória profissional de Luiz Fernando Bongiovanni impressiona. É bailarino há mais de vinte anos, metade deles passados na Europa – Cullberg Ballet e Ballet da Ópera de Gotemburgo, ambos na Suécia; Scapino Ballet, em Roterdã, na Holanda, e no Ballet da Ópera de Zurique, na Suíça. Desde que retornou ao Brasil, em 2004, trabalha na coordenação de projetos culturais, na execução de oficinas de improvisação e de composição e como coreógrafo em companhias como Balé da Cidade de São Paulo, Cia Jovem do Bolshoi, Balé Teatro Guaíra, Balé Teatro Castro Alves, Balé da Cidade de Niterói e Corpo de Baile Jovem do Theatro Municipal.

Sua inquietação também se apresenta na pesquisa, neste caso, de forma aparentemente incansável. Ele é diretor criativo do Núcleo Mercearia de Ideias, grupo que acaba de ser agraciado com o fomento à dança oferecido pelo município de São Paulo para o espetáculo Nossos Sapatos, que deve estrear em julho próximo.

Em micro-biografias usa a mem?ria como ponte para a dança

Em micro-biografias usa a memória como ponte para a dança

O foco deste trabalho é a memória e a forma com que as pessoas lidam com ela. Antes de seguir com a pesquisa, o grupo estreia hoje Micro-biografias, na Galeria Olido, em São Paulo.

Na entrevista a seguir concedida à Revista de Dança, Bongiovanni fala de seu trabalho, da carreira e do seu processo de trabalho.

Você tem um trabalho muito consistente em improvisação, possível de ver em suas criações. Como utilizou essa bagagem em seu novo espetáculo?

Toda essa história faz parte do que faço no dia a dia. Utilizo pouco o improviso em cena, como procedimento para coreografar é mais constante. Para este trabalho, os criadores trabalharam em improviso por um tempo para gerar uma assinatura própria, e posteriormente gerar material coreográfico para escolha e edição. Há também momentos de coreografia minha, embora cada vez mais eu prefira trabalhar com instrução à coreografia. Ocasionalmente trabalhamos o improviso como jogo. Acho que isso se tornou algo natural por conta do período que passei dançando, aqui e fora, e que considero meus anos iniciais de formação como artista. As primeiras criações com improvisação foram algo muito particular, artesanal mesmo. Mas, aos poucos, fui aprendendo com cada novo coreógrafo com quem trabalhava e adquirindo novas informações em relação a este assunto. E foi muito importante ter trabalhado com o repertório do Forsythe e colaboradores dele, como Jacopo Godani e Pascal Touzeau, além de outros.

Como surgiu o Núcleo Mercearia de Ideias?

Eu ainda estava no Balé da Cidade, mas percebi que a colaboração nesse tipo de instituição deveria ser sazonal, ou seja, percebi que seria importante manter uma certa autonomia criativa paralelamente ao trabalho no Balé, porque ali eu ficaria por um determinado período. Por conta de ter ministrado muitas oficinas e aulas depois que voltei ao Brasil, tive contato com muitos artistas e percebi um grupo recorrente nesses alunos. Aproveitei a montagem da opera Sansão e Dalila (2008), que coreografei no Municipal, para reencontrar alguns deles. Propus ao grupo fazermos um investimento conjunto e realizarmos uma montagem de dança contemporânea, baseada em uma peça de teatro do Garcia Lorca, A casa de Bernarda Alba. O grupo topou e estamos juntos desde 2009.
 

Fotos: Isis Gasparini

Ele trabalha o movimento como fonte de suas cria??es

Ele trabalha o movimento como fonte de suas criações

Qual a importância de receber um prêmio como o Fomento à Dança para a criação de Nossos Sapatos, que deve estrear em julho próximo?

O fomento vem em boa hora porque somente podemos contar com a dedicação sem remuneração por um tempo. Depois é imperativo ter salário, ajuda de custo ou cachê para continuar. O momento não poderia ser mais oportuno, porque com o Micro-biografias (que estreia hoje na Galeria Olido), tivemos a possibilidade de ganhar experiência, trabalhar com uma formação maior – somos nove pessoas –estabelecer um modo de pesquisa de movimento, ficar em forma com aulas diárias. Com isso, uma parte do processo de preparação para o fomento está sendo realizada mesmo sem a remuneração. Em tese, significa que talvez possamos antecipar as fases da criação para estrear de modo mais maduro no ano que vem.

Como foi o período de preparação e criação de Micro-biografias?

O processo obedeceu mais ou menos ao mesmo procedimento anterior: um período de aulas e treino em improvisação e composição para podermos alinhar um modo de trabalho. Na sequência, um processo de apropriação do tema mediante várias estratégias. Depois, a confecção de ideias para as cenas, o jogo, a definição e o treino, muito treino.

Para você, como é o processo de elaboração de projeto para um edital?

O processo de escrever é mais solitário. Eu escrevo e reescrevo muitas vezes o projeto com o intuito de deixar a ideia clara e simples, algo que me habituei a fazer desde a graduação em Filosofia, feita aqui na USP depois da minha volta. Inclusive, o Fomento de agora é um projeto reescrito. Creio que, neste processo, o projeto se altera, amadurece, se esclarece e fica mais objetivo. Com isso em mãos, é mais fácil entrar no estúdio para trabalhar. Afinal, é no estúdio que o projeto realmente se desenvolve.

Qual a ligação que você vê entre Nossos Sapatos e seus outros trabalhos?

Este espetáculo lida com a memória. A ideia do espetáculo existia de modo embrionário por conta de eu cada vez mais amadurecer a noção de que, com a improvisação constante, algo pessoal do artista transbordasse para sua dança. Uma certa noção de que dançamos o que somos, ou somos o que dançamos. A pergunta que tem rondado a minha cabeça é: será que meu movimento conta quem eu sou? Mas ele tomou mais força quando no início deste ano fui dar um curso no Balé do Teatro Castro Alves, em Salvador, e recebi de presente de uma bailarina um livro. Era a tese de doutorado da bailarina que me presenteou, Lícia Morais: Dramaturgia da Memória. Não consegui desgrudar do livro. Ele é cheio de nuances, mas basicamente a Lícia relata na primeira parte do livro a experiência dela com a Pina Bausch (1940-2009) em Wuppertal, onde ela trabalhou por dois anos. Difícil não se encantar novamente com a Pina e o jeito de ela trabalhar. Fiquei com muita vontade de começar a experimentar outras coisas no meu processo de criação e de concepção.

E quais os pontos mais consistentes no seu modo de trabalhar e, consequentemente, no espetáculo, a seu ver?

Talvez o que seja meu ponto forte seja um modo distinto de se mover, ligado à desconstrução de modos

tradicionais e buscando novas organizações do corpo. Mas tudo é muito ligado ao movimento, ao virtuosismo cinético e ao desenho espacial. Eu sou um artista da dança que ainda crê que o movimento tem muito a dizer, mas comecei a ficar com vontade de experimentar dançar menos desse jeito e buscar outros modos. Outra questão forte é a da cenografia. No novo espetáculo, a ambientação, ou mesmo a utilização de objetos cênicos, é algo que quis explorar mais. Com isso, a ideia era a de que esses elementos dançassem junto. Ou seja, não são meros apêndices, mas tão protagonistas como os bailarinos em alguns casos. Muitas vezes fico chateado quando algumas pessoas acham que objetos de cena ou cenografia são muletas e que o corpo tem de dar conta sozinho do que queremos tratar. Mas não é isso. A cenografia como protagonista possibilita que o público chegue a outro lugar, possa fazer inferências outras.

E os outros bailarinos? Como eles participaram da criação?

Cada um selecionou algo fundamental da vida, a memória de um fato importante para construir ao redor. Essa construção foi, na maior parte das vezes, conjunta. Depois de conversar bastante eu apresentava sugestões para serem desenvolvidas. Às vezes sugeria estratégias para o desenvolvimento. Então a partir das nossas memórias construímos um espetáculo. É como se dividíssemos com a plateia algo muito pessoal, íntimo. Mas o que dividimos dele é algo que pode ser comunicado, algo universal.

Luiz Fernando Bongiovanni ? diretor criativo do N?cleo Mercearia de Ideiais

Luiz Fernando Bongiovanni é diretor criativo do Núcleo Mercearia de Ideiais

Seu currículo inclui trabalhos expressivos tanto em direção quanto coreografia e na formação de bailarinos. Como consegue conciliá-las, destinando a cada uma a energia criativa que merecem?

Eu talvez devesse dizer que não consigo conciliar (risos). É difícil, mas creio que estão todas interligadas. Em especial no Mercearia, tenho a chance de trabalhar todas elas conjuntamente. Dirigir o grupo me dá prazer porque tenho autonomia para eleger que assuntos quero abordar, ou seja, é aquilo com o que a gente sonha quando não tem! Posso trabalhar com o pessoal e instruí-los da melhor maneira, dentro das minhas limitações e das do grupo. Há ainda os convites de trabalho para outras companhias ou escolas. Acho importante encontrar modos de continuar fazendo isso. Cada novo lugar apresenta uma possibilidade de aprendizado com as pessoas que lá estão. Acabo tentando organizar a agenda com bastante antecedência para poder fazer tudo. Agora em novembro, por exemplo, terei a chance de trabalhar como assistente na ópera Macbeth, com a direção do Bob Wilson. Não dá para deixar de fazer coisas assim, elas são a chance de continuar estudando e aprendendo.