Primeira Pessoa

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Para viver um sonho

Foto: acervo da artista

Luiza Lopes, primeira-solista na Suécia

No camarim, ao lado dos presentes

 

 

Dançar em uma companhia fora do Brasil era um sonho desde criança. Via nos antigos vídeos aqueles teatros lindos e antigos, com a orquestra tocando ao vivo, os camarins onde cada bailarino tinha sua bancada, os ensaios com pianistas. Tudo isso sempre foi um desejo. Quando fiz 24 anos, ano passado, senti que era a hora de tentar dar um passo além e ver como as coisas aconteciam.

Foi uma decisão difícil: estava muito feliz e realizada dançando na São Paulo Companhia de Dança, mas sabia que, se esperasse muito tempo, talvez fosse tarde. Todos sabem, é uma carreira linda, mas curta. Decidi tentar, sem pretensão e sem colocar muita pressão em mim mesma porque, na verdade, nem tinha certeza se era isso o que queria.

No Royal Swedish Ballet

A audição em Estocolmo foi uma loucura: era a última da série que estava fazendo na Europa e, de todos os lugares, era o único onde não conhecia nenhum bailarino e não tinha nenhum brasileiro no grupo. Tinha acabado de conseguir um contrato de solista no Zurich Ballet e estava bem empolgada com a oferta. Então, nem estava esperando muito dessa tentativa.

Cheguei completamente sozinha, numa cidade nórdica e fiquei em um hostel particular: um barquinho no canal! Eram 23h, muito frio e o “barquinho” estava fechado. Não tinha uma alma na rua e a placa na porta dizia alguma coisa em sueco, mas tinha um número de telefone. Liguei e disseram que o check in só ia até às 22h, mas foram gentis e abriram para mim.

No dia seguinte, peguei o mapa e fui andando para o teatro, estava chovendo e a temperatura, bem baixa. Fiz a aula e lembro que minha primeira impressão foi: como são altos! Achei os bailarinos maduros, muito bonitos fisicamente e um clima tranquilo. O diretor entrou no fim da barra para assistir à aula. Depois, pediu para encontrá-lo em seu escritório.

A conversa foi amigável, quis saber o que tinha me levado ao Royal Swedish Ballet, se já tinha algum outro contrato e me pediu um vídeo. Por fim, disse que tinha interesse, mas precisava pensar junto com a equipe qual cargo poderia me oferecer.

No dia seguinte, fiz aula novamente, mas ele nem apareceu. Pensei que não ia dar certo. Mas tinha uma ballet master na sala e ela veio falar comigo para dizer que me dariam uma resposta o mais breve possível. Da minha parte, disse que o diretor de Zurich tinha me dado o prazo de uma semana para pensar e pedi, se possível, uma posição até o fim da semana para poder tomar uma decisão.

Fui embora e sentei em um café para esperar o horário do meu voo, ia direto para o aeroporto. Uma hora depois, recebi um e-mail do diretor me oferecendo um contrato de primeira-solista. Nem acreditei. Foi assim que tudo aconteceu.

Primeiro passo

Chegar à companhia foi um pouco assustador! Não conhecia ninguém, o prédio é gigante, não sabia direito onde era o camarim, onde estavam os estúdios, nada. No primeiro dia, antes de a aula começar, o assistente do diretor entrou na sala e me apresentou para a companhia, todos aplaudiram. Fiquei envergonhada, mas, desde esse gesto, já pude perceber como eles tratam um artista por aqui: com muito carinho e respeito.

Trabalhamos das 10h às 17h, com 45 minutos de intervalo para almoço, nos dias que não temos espetáculos! Quando temos, trabalhamos das 10h às 14h e temos uma pausa. Às 18h tem uma aula de aquecimento opcional de meia hora e o espetáculo começa às 19h. No dia seguinte, começamos às 10h, normalmente. Isso foi bem diferente para mim.

Dependendo da produção, saímos do teatro às 23h e no dia seguinte começamos tudo de novo às 10h. Algumas pessoas voltam para casa para descansar nessa pausa no meio da tarde, eu particularmente não gosto, sinto que perco o fio da meada, e aqui no camarim temos um sofá que vira cama; podemos dormir um pouco se for o caso. Todos os camarins são muito confortáveis, com geladeira, televisão, micro-ondas, pia.

O trabalho aqui é levado muito a sério, o que amo. São quase 70 bailarinos, com um elenco forte no clássico e no contemporâneo: alguns só dançam as produções contemporâneas, outros, as produções clássicas; há ainda os que dançam os dois. Posso dizer que são pessoas muito diferentes e versáteis. Para mim, isso transforma o ambiente em um

Acervo da Artista

Ao lado de Laurent Hilaire

Ao lado de Laurent Hilaire: ensaios de Don Quixote
Foto: Juliana Winklud

Na estreia no papel principal de Raymonda

Luiza Lopes chegou ao Royal Swedish Ballet como primeira-solista. Em pouco menos de seis meses, fez seu primeiro papel principal na versão da casa de Raymonda  

 

 

lugar leve e, ao mesmo tempo, dá para aprender com as qualidades do outro.

Também notei a diferença de costumes em relação ao trabalho em geral! Lembro-me de um dia, no meio da temporada de Don Quixote, por algum motivo, a camareira não estava no camarim, e uma menina a estava procurando para fechar o tutu. Eu me ofereci para ajudar e ela gentilmente disse que era serviço da camareira, não dos bailarinos, e ela devia estar ali naquele momento. Achei aquilo muito engraçado porque no Brasil fomos acostumados a nos virar com o que temos, sem frescuras. Aqui já cresceram com essa cultura, é diferente, por causa da tradição.

Estreia e temporadas

Cheguei em Estocolmo em março de 2015 para a temporada de Don Quixote, na versão de Rudolf Nureyev! Todos os elencos já estavam definidos e estava de suplente de vários papéis: ou seja, tinha que aprender, mas não era elenco oficial de nada. Fazia alguns ensaios de Rainha das Dríades, mas havia outros três elencos na frente.

Pouco antes da estreia, o primeiro elenco se machucou. Em uma manhã, sem avisar, o diretor entrou na sala para me ensaiar e, no dia seguinte, tinha virado primeiro elenco de Rainha das Dríades! Era muita felicidade, não me esqueço da sensação quando vi a lista. Fiquei meio trêmula.

Dancei a noite de estreia e tínhamos como convidada a primeira-bailarina Yolanda Corrêa, estrela cubana atualmente no Norwegian National Ballet. Uma bailarina que há anos acompanhava por filmes e sempre admirei muito. De repente, estava ali, dividindo a cena e contracenando com ela!

Outra grande emoção dessa produção foi a oportunidade de ser ensaiada por Laurent Hilaire. Ele foi etoile do Balé da Ópera de Paris e estava entre os únicos cinco nomeados pessoalmente por Nureyev. Ele me ensaiou, fez correções, passou um pouco de seu conhecimento, com uma humildade e uma generosidade sem tamanho.

Um dia, andando pelo prédio, olhei o que estava acontecendo em uma sala: Laurent Hilaire ensaiando Yolanda Corrêa; em outra: Mats Ek com Ana Laguna começando a produção de O Lago dos Cisnes. Pensei: estou vivendo meu sonho.

Mais novidades

Continuei os ensaios de Rainha das Dríades e dois dias antes da estreia, uma das meninas que fazia amigas de Kitry, no segundo elenco, se machucou. Era suplente do papel, sempre acompanhava os ensaios atrás, sabia os passos, mas nunca tinha realmente dançado e também não sabia nada da mis en scène.

Os ensaiadores vieram com muito respeito e perguntaram se eu achava que daria conta de aprender em dois dias. Eles tinham outras opções, mas gostariam de que eu fizesse. Como boa brasileira, disse sim, pensando nas poucas horas de sono que teria nos próximos dias para conseguir saber tudo.

Dancei Rainha das Dríades no primeiro elenco e amigas de Kitry no segundo. Aqui, normalmente o primeiro e o segundo elenco dançam a mesma quantidade de espetáculos, o terceiro e o quarto sempre dançam também, mas menos espetáculos.

A noite de estreia foi mágica e a consecutiva também.

No meio da temporada, o diretor me pediu, muito delicadamente, para fazer todos os espetáculos como Rainha das Dríades dali em diante: fiquei super feliz, mas sabia que fisicamente seria puxado dançar esse papel e amiga de Kitry na mesma noite e em todos os espetáculos (tinha alguns livres até então), mas topei, claro! Pela tabela, apenas em um espetáculo os dois papéis coincidiriam.

Quando achei que já podia ter acontecido tudo, no fim da temporada, uma das meninas que fazia “amigas” no primeiro elenco se machucou. Eles trocaram os elencos e fiz os dois personagens nos três últimos espetáculos. Acabei a temporada morta, mas, acredite se quiser, as últimas apresentações foram as melhores!

Primeiro papel

Pouco antes das férias, saiu o elenco de Raymonda, que dançaríamos duas semanas depois do retorno, em agosto. A montagem do Royal Swedish Ballet foi feita em 2014, com o primeiro ato coreografado por Pontus

Lidberg e o segundo remontado por ele, a partir da versão de Nureyev. Estava escalada como suplente do papel principal e era elenco oficial de mais três papéis diferentes.

Reprodução

Ensaio de Raymonda com Dawid Kupinsky

Ensaio ao lado de Dawid Kupinsky

 

 

Fiquei feliz demais e sabia que vinha bastante trabalho pela frente!

Voltei ao Brasil de férias e dancei como convidada pela São Paulo Companhia de Dança La Sylphide, que tinha estreado no ano anterior. Foi uma delícia, eu me senti em casa, parecia que nunca tinha saído de lá. Muito bom me sentir acolhida no meu país e saber que as portas estão sempre abertas.

Além de dançar com a SPCD, nas minhas férias fiz aulas com o professor Renato Paroni e foi fundamental para retornar afinada e afiada para a nova temporada.

Papel principal

Voltamos e tivemos duas semanas e meia até o dia da estreia. Duas semanas e meia para aprender quatro lugares diferentes em um balé completo! Estava presente nos ensaios da principal, mas sempre atrás. Aprendi o pas de deux, lindíssimo, mas complicado de conhecer apenas olhando. Nunca o tinha ensaiado de fato.

Mais ou menos no meio da temporada, começaram a colocar alguns ensaios esporádicos para mim e meu partner e o diretor assistiu a alguns. Tivemos um espetáculo em um sábado e, na segunda-feira, a bailarina que fazia a principal não foi. Acabou a aula e fui escalada para um ensaio do trio (parte do papel principal): eu não sabia a coreografia e nunca tinha encostado em absolutamente nada.

No dia seguinte, o diretor entrou na sala no meio do ensaio, nos pegou, eu e meu partner, pela mão e nos levou até outro estúdio. Ao lado dos ensaiadores, disse que faríamos os dois últimos espetáculos como principais. Fiquei muito feliz, muito, mas tinha dez dias para aprender e fazer ficar bom um balé completo, do qual só sabia o pas de deux!

Foram dez dias intensos, acordava cinco e meia da manhã para estudar, fazer a coreografia entrar na minha cabeça e no meu corpo. Horas e horas de ensaio, mais os espetáculos que estava dançando no lugar que eu já fazia. Quando me dei conta, já era o dia da minha estreia no papel principal. Um sonho realizado, não tem jeito. O palco tem um poder inexplicável sobre mim, quando eu estou ali, acontece uma transformação quase divina, sou transportada para outro lugar, é mágico.

Todos estavam torcendo muito por mim. Recebi apoio dos bailarinos e da direção, que viram meu esforço em pouco tempo de trabalho. Eles eram os primeiros a aplaudir, foi especial. Eu me senti acolhida.

Coincidentemente, minha irmã estava aqui no dia da minha estreia no papel principal. Era sua lua de mel e ela me assistiria de qualquer maneira, mas ninguém imaginava que estrearia como principal naquele noite. Uma coincidência maravilhosa. Demorou a cair minha ficha: estava vivendo tudo aquilo e tinha sido tão rápido. Eu tinha feito a escolha certa, na hora certa.

Pela frente

Uma semana e meia depois da estreia de Raymonda, saiu a lista do elenco de O Quebra-Nozes, e fui escalada para o papel principal. Não preciso nem contar o tamanho da minha felicidade, um reconhecimento do trabalho que tenho feito desde quando cheguei.

A estreia é no início de dezembro e é uma versão linda de um coreógrafo sueco, Pär Isberg, que vi muitas vezes pela internet com Jurgita Dronina, ex-bailarina principal dessa companhia.

Daqui, também continuo trabalhando com a Balletto, marca de roupa de dança e fitness com a qual estou desde seu nascimento.

Desafios

A vida em Estocolmo é bem diferente. Acabamos de entrar no outono e a temperatura já está -3° pelas manhãs. Dizem que o mais difícil é a escuridão. No ápice do inverno, são apenas duas horas de luz ao dia e estamos dentro do estúdio. Ou seja, boa parte do inverno passamos no escuro. Dizem que é a parte mais difícil. Os bailarinos tomam muita vitamina D no inverno e tem uma luz solar artificial em casa, que ajuda a produzir um pouco das vitaminas necessárias para o corpo. Uma loucura, não é? No Brasil, a gente nem imagina uma coisa dessas. Mas estou tranquila, aprendendo maneiras de curtir o inverno. Sempre muitas velas acesas em casa mantém o ambiente aconchegante e confortável.

O mais importante, cada dia aprendo algo novo, sobre a cultura, sobre a dança, sobre a arte e  sobre eu mesma. Sinto que cresço um pouco a cada dia e foi para isso que vim: para crescer, aprender e evoluir!

Foto: Juliana Winklud

Cena de Raymonda

Cena de Raymonda