Reportagem

Redigida em:

Pra lá de bailarino

Por Alexandre Staut

O título já sugere a ação, Processos Coreográficos. A recente atividade da São Paulo Companhia de Dança (SPCD) aposta nos bailarinos da casa como novos criadores, e o primeiro resultado será apresentado para o público na Galeria Olido, de 12 a 14 de outubro, com trabalhos de Milton Coatti, Samuel Kavalerski e Rafael Gomes.

A investigação artística é denominador comum entre eles, embora cada um tenha relação distinta com o movimento e as experimentações com o corpo, e puderam contar com seus próprios colegas de elenco como intérpretes. “O programa nos deu a possibilidade de desenvolver as coreografias com bailarinos profissionais”, diz Coatti. “Comecei esses experimentos ao lado do Samuel e da bailarina Irupé Sarmiento (que já deixou o grupo).

Sua inspiração é a noite paulistana e tem figurinos de Lino Villaventura e Virgílio Andrade

Sua inspiração é a noite paulistana e tem figurinos de Lino Villaventura e Virgílio Andrade

Encontrávamo-nos em horários alternativos e a ideia era desenvolver novas linguagens de movimentos”, afirma ele, que começou a coreografar em 2003. Ele levará ao palco Subvertido, cujo foco é são as relações amorosas. A obra inclui três diferentes peças: Subversivo, Xícaras sujas e Vertigem. “Desde que comecei a dançar, aos 16 anos, tenho ideias de balés. Acho até que sou melhor coreógrafo do que bailarino.”

Samuel Kavalerski partiu dos desenhos das linhas invisíveis que os corpos traçam enquanto dançam para as duas criações, o duo Uma lua e o solo Bubble Heart. “Eu também buscava nos intervalos de ensaios e de aulas momentos em que pudesse fazer investigações coreográficas. Minha prioridade sempre foram as coreografias oficiais do grupo, mas quando possível acabava me encontrando com o Milton e a Irupé para o trabalho paralelo”, conta Kavalerski.

Uma de suas marcas, como artista, é a mistura de linguagens, advinda do fato de que é formado também em Artes
 

Fotos: divulgação

Subversivo, de Milton Coatti, trata das relações amorosasSubversivo, de Milton Coatti, trata das relações amorosas

 

Kavalerski apresentará duas peças, um duo e um soloKavalerski apresentará duas peças, um duo e um solo

 

O trabalho de Coatti usa sua pesquisa de movimentoO trabalho de Coatti usa sua pesquisa de movimento

Visuais, com ênfase em computação. Um dos seus trabalhos inaugurou a seção Primeira pessoa, da Revista de Dança. Trata-se de Projet pas de danse, animação interativa que associa a linguagem de internet à dança, projeto iniciado em 2007, quando Kavalerski se afastou Brasil para viver em Paris. “Um momento de distanciamento e reflexão, inspirado por longas caminhadas pela cidade e pela leitura (desconstrutiva) de O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar”, diz. Como coreógrafo, ele acaba de realizar um vídeo clipe para o músico Thiago Pethit, em que convocou uma dezena de colegas da SPCD.

Kavalerski e Coatti integram a SPCD desde sua criação, em 2008, e os encontros a que se referem fizeram parte no ano de 2010 de um Ateliê de Coreógrafos com apresentações internas e, desde o ano passado, a atividade integra o Programa de Desenvolvimento das Habilidades Futuras do Artista da Dança (leia box nesta página) da instituição e pela primeira vez será apresentado ao público em geral. “Com o PDH, podemos utilizar as salas da Oficina Oswald de Andrade, onde a SPCD está instalada, e também contar com a colaboração dos colegas com técnica apurada para interpretar nossas obras”, diz Kavalerski.

Como eu, só é a estreia de Rafael Gomes como coreógrafo

ESTREIA – Coatti e Kavalerski já tinham certa intimidade com a criação, diferentemente de Rafael Gomes, que estreia sua primeira obra, Como Eu, Só. A inspiração vem da vida noturna da capital paulista, em especial da região chamada Baixo Augusta. “Comecei a criar a peça meio por acaso, testando movimentos em meu próprio corpo”, diz o bailarino, que nunca antes pensara em coreografar, até surgir a oportunidade da companhia.

Bubble heart, de Samuel Kavalerski, criou a partir de linhas do movimento

Para o projeto, Gomes convidou os estilistas Lino Villaventura e Virgílio Andrade para assinarem os figurinos, além do DJ Bruno Jakob para compor uma trilha inédita. “Eles são referência para o meu trabalho, mas trago outras coisas na bagagem, como peças da companhia israelense Batsheva, fundada em 1964, pela americana Martha Graham (1894-1991)”, conta. “O intercâmbio com pessoas de fora e a aproximação com os próprios bailarinos da companhia foram muito interessantes neste projeto. O PDH me possibilitou juntar pessoas e, ao mesmo tempo, ter a liberdade de mostrar um lado que eu nunca tinha tido chance”, revela Gomes.

 

 

Um olhar para o futuro

O Programa de Desenvolvimento das Habilidades Futuras do Artista da Dança (PDHFAD) desenvolvido pela São Paulo Companhia de Dança desde o ano passado visa criar outras formas de trabalho na dança para seus bailarinos, quando estes passarem para o outro lado da cena. “Não temos um plano de aposentadoria para bailarinos no Brasil. Com o projeto, tentamos viabilizar outras carreiras para que este artista possa continuar trabalhando com dança na hora da sua reconversão profissional”, diz Inês Bogéa, diretora da companhia e consultora da Revista de Dança. “Desde que a SPCD foi criada, esta sempre foi uma preocupação minha e da Iracity Cardoso, com quem dirigi a SPCD até abril deste ano”, diz.

Ela mesma, quando deixou a carreira de bailarina aos 36 anos, tornou-se crítica, autora de livros e

documentários sobre esta arte, até ser diretora artística da SPCD.”O programa abriu vagas para que os bailarinos pudessem desenvolver atividades ligadas à dança, ampliando habilidades e planejando um futuro profissional. A ideia é que eles passem por diferentes áreas como professores, ensaiadores, auxiliares de ensaio, pesquisadores de dança, desenhistas, fotógrafos e coreógrafos”, diz a diretora.

Por meio de um processo seletivo, os candidatos enviaram cartas de intenção para vagas de ensaiador e auxiliar de ensaio, coreógrafo e professor. Aqueles que se inscreveram para coreografia apresentaram um projeto do trabalho que desejavam desenvolver. Para os professores, foi pedido um planejamento para duas aulas, a prática de exercícios de dar aulas e aquecimentos. Aos ensaiadores foi estipulado que

deveriam assistir aos ensaios durante o período de montagem ou remontagem de um espetáculo.

“A ideia é que artistas façam intercâmbios em áreas diversas. Alguns perceberam que poderiam desenvolver trabalhos em fotografia, outros como desenhistas”, diz a diretora. Num primeiro momento, além dos bailarinos que apresentam este fim de semana seus trabalhos coreográficos, Milton Coatti e Samuel Kavalerski vão desenvolver trabalhos de ensaiadores; Roberta Bussoni e Duda Braz, de auxiliares de ensaio; Michelle Molina e Fabiana Ikehara desenvolvem projetos de fotografia, Yoshi Suzuki, de desenhos de dança; e Ana Paula Camargo, Ed Louzardo e Luiza Lopes vão treinar para se tornarem professores.