Primeira Pessoa

Redigida em:

Um caminho para Alice

 

Alice no País das Maravilhas, de Luiz Fernando Bongiovanni

Alice no País das Maravilhas, de Luiz Fernando Bongiovanni
 

Na versão, Alice precisa encontrar seu próprio caminho

Na versão, Alice precisa encontrar seu próprio caminho
Fotos: Costin Radu

Os bailarinos ajudaram em seus personagens

Os bailarinos ajudaram em seus personagens

Inspirado na história clássica de Lewis Carroll, que comemora 150 anos em 2015, Alice no País das Maravilhas também é o nome da recente criação do coreógrafo brasileiro Luiz Fernando Bongiovanni para o Ballett im Revier. A obra estreou no último dia 31 de outubro, em Gelsenkirchen, na Alemanha, e teve acolhida calorosa pelo público e pela crítica local. Bongiovanni já dançou em importantes companhias na Europa – Zürich OpernHaus (Zurique), Scapino Ballet (Holanda), o GoteborgsOperan (Suécia), Cullberg Ballet (Suécia) – e hoje dirige o Núcleo de Pesquisa Mercearia de Ideias. Neste depoimento para a seção Primeira Pessoa, reflete sobre a montagem, desde o convite da diretora artística da companhia Bridget Breiner até a estreia do espetáculo. Confira os melhores trechos.

O CONVITE | Na festa de estreia de Terra Brasilis (2013), em Hagen (Alemanha), finalmente conheci a diretora do Ballet im Revier, de Gelsenkirchen, Bridget Breiner. Havíamos tido contato um ano antes, quando coreografei um solo para o bailarino Junior Demitre dançar na Gala realizada por ela ao assumir a direção da companhia em 2012. Mas esse trabalho foi criado no Brasil, quando Junior estava por aqui no recesso de julho, verão europeu. Por isso, nunca havia conversado com Bridget pessoalmente. Logo após a estreia em Hagen, a diretora entrou em contato comigo e perguntou se teria interesse em criar para a companhia de novo, mas, dessa vez, para o grupo todo, em um trabalho que ocuparia a noite inteira. Fiquei muito feliz com o convite e com a confiança que ela estava depositando em mim, afinal pouco nos conhecíamos. A ideia da direção do balé era de que eu ocupasse a Kleine Saal (o teatro pequeno), que eles possuem na casa, e teria liberdade de reorganizar o espaço como quisesse. A única sugestão foi que o trabalho dialogasse com a tradição europeia de balés de história e escolhemos conjuntamente Alice no País das Maravilhas.

TIME | Trabalhei no projeto com um time, parte alemão, parte brasileiro. O time alemão tem a dramaturga Ana Grundmeier, a designer de luz Mariella Vequel, a cenógrafa Britta Toenne e a figurinista Ines Alda. Do lado de cá do Atlântico, contei com os músicos Eduardo Contrera, que assina a curadoria musical e compõe parte dela, e Guilherme Chiappetta, e o vídeodesigner Binho Dias, responsável pelas vinhetas gráficas. Eu gosto um bocado de trabalhar em grupo, e a partir da dramaturgia tradicional, fui reelaborando uma outra dramaturgia, num bate e volta com a maior parte do time. O desejo era de que o trabalho apontasse para questões de construção de autonomia ou de modo mais simples, como é que a gente cresce, amadurece e toma conta do próprio nariz?

ALICE | Nossa Alice é uma adolescente em processo de amadurecimento. Todos os personagens com os quais ela interage são experimentos/
experiências. Nossa intenção foi fazer com que cada uma das experiências trouxesse à tona uma assunto relativo ao processo de amadurecimento do indivíduo, em especial, do universo feminino. São questões relativas à sexualidade, à imagem de si mesmo, à manipulação do outro, ao amor e ao coração partido, à relação com os pais, aos sonhos e fantasias, ao controle… e por aí vai. Talvez a questão de fundo mais importante seja: como um jovem encontra a própria voz? Como Alice deixa de ser espectadora da própria vida e passa a protagonizar seus atos? Acho que temos mais perguntas do que respostas… qualquer resposta seria pretensiosa demais. Ou talvez doutrinadora. A verdade é que não há receita para crescer, cada um precisa encontrar seu caminho. Curiosamente, há um espelhamento no modo como o processo de criação do espetáculo foi conduzido. A companhia trabalha um repertório bastante clássico; na maior parte das vezes, são intérpretes. Entretanto, para essa obra, a ideia foi, numa primeira fase, instrumentalizar os bailarinos para que pudessem colaborar no processo de criação. A cada um foi pedido que encontrasse sua voz, isto é, sua linguagem pessoal.

ESTREIA | Estrear um trabalho é sempre especial. Não é porque é na Europa que é mais ou menos. A sensação é sempre a mesma, de estar pondo para fora algo que um dia só você sentiu ou viu, compartilhar com outras pessoas sua visão de mundo, seus desejos, seus medos… Sempre vai ter gente que gosta e gente que não gosta. Melhor quando tem mais gente que se identifica, se emociona, viaja junto. A sensação é que era hora de estrear. Entretanto, estávamos trabalhando até o ultimo minuto nas luzes e nas projeções, corrigindo bailarinos, aprofundando interpretações, verificando a cenografia que é parte dançante do espetáculo. E finalmente, o terceiro sinal. À medida que o espetáculo ia avançando, não conseguia assistir apenas aos bailarinos. Eu assistia à plateia. Minha curiosidade quase infantil queria ver como um senso de humor do lado de cá dos trópicos se comunica com um alemão. Para minha felicidade, humor é humor no mundo inteiro. Assim como saudade, tristeza, enfim, há toda uma gama de emoções que é nitidamente humana e por onde andamos, lá estão elas. O espetáculo foi fortemente aplaudido. Durante um bom tempo escutava, atrás das cortinas, as palmas, insistentemente. É comovente e justifica todos esforços, toda a saudade dos filhos, todas noites insones, toda insegurança e vulnerabilidade pela qual se passa antes de finalmente dar a cara a tapa.

AGORA | Não poderia ter tido uma estreia melhor. Uma sensação de jornada que chega ao fim, como a minha protagonista/heroína, que após uma sucessão de eventos e encontros, parece encontrar um pouco mais a sua própria voz. Eu, assim como Alice, saio transformado. O diretor assistente me disse que as críticas são maravilhosas. Muito elogio e eles falaram que tem o grupo te um hit nas mãos. Estão vendendo ingressos e a casa está esgotada por vários espetáculos. Eu fico bem feliz e queria poder estar por lá para compartilhar esse sucesso. Mas estou aqui virando a página e correndo atrás da próxima onda.

Alguns olhares sobre a obra

 

Coreografia ágil e jovial
 

Encontros entre personagens
Fotos: Costin Radu

Cenário cheio de surpresas

“Com uma coreografia visualmente poderosa, ofegante e insana, o brasileiro Luiz Fernando Bongiovanni transforma o Ballett im Revier em País das Maravilhas, em um teatro de sonhos de ritmo acelerado, mágico e poético. Grande estreia no teatro da casa.”

Elisabeth Höving
Habilidade dos bailarinos em cena

O convidado brasileiro (Bongiovanni) deixa a menina Alice andando na busca complicada e, por vezes, confusa do seu próprio caminho para a vida adulta através de labirintos, cambaleando, explorando – todas as portas, todas as surpresas, todos os novos encontros, em todos os lugares, um milagre em um país estrangeiro.”

“O que Bongiovanni realiza é uma permanente e inquieta velocidade estonteante.”

Jörg Loskill

“Ao lado desses tons graves, Bongiovanni encontra também uma linguagem da dança alegre e jovial”

“A coreografia de Bongiovanni se mostra de um lado com quadros imaginativos, como em um ambiente familiar; por outro lado, estabelece uma linguagem que nos faz refletir”

Thomas Molke