Reportagem

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Pela continuidade do Balé Teatro Guaíra

 

 

Por conta de um imbróglio burocrático de leis trabalhistas, 22 bailarinos do BTG, que eram comissionados, foram exonerados ontem, em plena terça-feira de carnaval, no dia 28 de fevereiro. Serão mantidos apenas 3 profissionais que são estatutários: Regina Kotaka, Wanderley Lopes e Soraia de Felício. A Secretaria do Estado da Cultura do Paraná acena com a promessa de um processo seletivo simplificado, que deve ocorrer em meados de abril, admitindo os selecionados no regime de CLT. Insatisfeitos com as incertezas deste cenário, os bailarinos prepararam coletivamente uma performance para chamar a atenção da população. A manifestação, intitulada Grito de Adeus, marcando o final de um ciclo, aconteceu dia 23 de fevereiro, em frente ao Teatro Guaíra, quando a rua foi fechada para o trânsito de carros.

A emoção, a tristeza e a resistência dos bailarinos eram visíveis para quem acompanhava. Vestidos de preto, externando o sentimento de luto, eles foram ganhando o espaço da rua abraçando-se uns aos outros. Em seguida foram se aglomerando como se suportassem o peso das paredes da fachada do teatro, convidando a comunidade a participar do movimento. Para finalizar, foi formada uma grande roda de mãos dadas que ocupava a quadra inteira.

Um ponto alto da manifestação foi a interpretação de um trecho do balé A Sagração da Primavera, com música de Igor Stravinsky, estreado pela companhia em 2012, numa versão da coreógrafa portuguesa Olga Roriz.

Foto: Wagner Bitencourt

Profissionais da dança em resistência se manifestam em frente ao Teatro

De acordo com Patrícia Machado, bailarina, a obra foi escolhida por representar bem o momento atual do grupo. Assim como a protagonista da obra, os bailarinos dançam até sucumbirem à exaustão para dar espaço ao novo e a tempos melhores. Os bailarinos começaram a cair no chão, sendo cobertos por terra por outros bailarinos ou pelas pessoas que assistiam à performance. “Foi um ritual que expressa o fim de um ciclo do formato que existia no BTG”, disse a bailarina Malki Pinsag.

Ela acredita que o novo formato de contratação proposto pela Secretaria de Estado da Cultura do Paraná será melhor, mas o que preocupa é que ainda não se sabe quais serão as condições trabalhistas a serem oferecidas. Isso vai depender do entendimento entre a direção do BTG e o Governo Estadual a respeito de como será o edital, de como vai funcionar e de quantos profissionais serão admitidos, o que pode refletir na formação do repertório do balé.

Patrícia lembra que uma das preocupações dos bailarinos diz respeito ao salário que será oferecido.

 

Isso porque o Centro Cultural Teatro Guaíra solicitou ao Governo Estadual o investimento de R$ 12 milhões ao longo deste ano e foram liberados recursos em torno de R$ 5 milhões.

Outra questão que aflige o grupo: “A Secretaria da Cultura havia prometido que não haveria hiato entre a exoneração do staff atual do BTG e a contratação dos novos bailarinos. Mas este hiato está ocorrendo”, diz ela.

Malki lembra que o BTG realizou uma audição no final de 2015 e que todos estão bem preparados para participar deste processo seletivo simplificado. “Agora a gente tem a opção de participar ou não desta nova audição. Acho que todos vão se organizar e dar continuidade à sua vida artística”, diz ela.

Patrícia afirma que, pessoalmente, neste momento a audição é o de menos: “Me preocupo pelas novas gerações de bailarinos e pelo fato da cidade estar perdendo uma companhia pública de qualidade”.

A voz da Secretaria de Cultura

Foto: Wagner Bitencourt

No dia da manifestação, bailarinos dançaram na rua e deram as mãos ao lado do Teatro

Por meio de nota, a Secretaria de Estado da Cultura afirmou que está fazendo o possível para realizar o processo seletivo simplificado para a contratação de novos bailarinos. Veja a nota na íntegra:

“O último processo seletivo simplificado do Teatro Guaíra e, por consequência, de músicos da Orquestra Sinfônica do Paraná e de bailarinos do Balé Teatro Guaíra foi realizado em 1991. A defasagem no número de servidores que daí se originou, em virtude das aposentadorias ocorridas ao longo dos anos, obrigou o Centro Cultural Teatro Guaíra a contratar os músicos via cachê artístico, até que, em 2002, esta prática foi proibida pelo Tribunal de Contas do Paraná.

A fim de resolver a situação, em 2003 foram criados pela Lei 14.054/2003 81 cargos comissionados de natureza artística,

 

 

destinados aos corpos artísticos do Centro Cultural Teatro Guaíra.

Em 2012, o Ministério Público do Paraná, representado pelo Procurador-Geral de Justiça, ingressou com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI 18381/14) questionando a constitucionalidade desta lei.

A inconstitucionalidade da Lei 14.054/2003 foi declarada pelo Órgão Especial do Tribunal de Justiça em 05/12/2016, determinando a extinção dos cargos em comissão para 04/03/2017. Comprometendo, desta forma, a manutenção dos corpos artísticos – Balé Teatro Guaíra e Orquestra Sinfônica do Paraná.

Com o intuito de resolver o problema, em 17 de dezembro de 2014, foi instituído pela Lei nº 18.381/2014 o Serviço Social Autônomo PALCOPARANÁ,

com a finalidade de desenvolver e fomentar atividades dirigidas à produção de espetáculos, bem como a prestação de serviços relacionados às expressões artísticas e culturais.

O contrato de gestão entre o Governo do Estado do Paraná e o PALCOPARANÁ foi assinado em 05/12/2016, inaugurando a instalação desta instituição.

Para que o PALCOPARANÁ possa cumprir as metas a que se obrigou pelo plano de trabalho, é indispensável a contratação de músicos e bailarinos mediante processo seletivo simplificado (previsto no art. 9º, da Lei nº 18.381/2014), a fim de que os princípios constitucionais da equidade, impessoalidade, moralidade e publicidade sejam respeitados, evitando favoritismos e parcialidades.”