Sala de Aula

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Antes, a sala de aula

 

Foto: arquivo

Ricardo Scheir conduz o Pavilhão D

Ricardo Scheir conduz o Pavilhão D

 

 

A sala de aula é a antessala do palco. Não há uma bela carreira sem um bom professor, independentemente da técnica. Atenção, ser bom não significa ser bonzinho. Mas é preciso generosidade para olhar o outro, realçar qualidades e treinar dificuldades. Quem são os formadores em destaque no Brasil, o que fazem, como trabalham, o que pensam? Esses profissionais colaboram com a cena da dança brasileira com dedicação e entusiasmo, mesmo que nem sempre sejam lembrados pelo público.

Ricardo Scheir, do Pavilhão D, de São Paulo, é reconhecido por seu olhar certeiro e exigência na sala de aula, já revelou muitos talentos e, no dia a dia, muitas vezes “é chato”, como diz, pois precisa ensinar. Não mede esforços para ajudar e não tem medo de dizer que se desdobra para manter sua escola da maneira que acredita, sem concessões.

Teve como grande mestra Toshie Kobayashi, foi diretor e coreógrafo da W´atts Cia de Dança (1986-1989), dançou na Austrália com a David Atkins Dance Company na década de 1980. Atualmente, além da escola, atua como professor convidado e jurado em diversos festivais e eventos do Brasil. Para ele, não é apenas um corpo apto para a dança o que chama sua atenção em um jovem bailarino. Às vezes, é o olhar, às vezes o movimento do braço que o faz olhar duas vezes para a mesma pessoa. Muitos desses meninos e meninas que encontra pelo Brasil acabam hospedados em sua casa, quando não têm condições de se acomodarem em outro lugar.

Em quase 20 anos de escola, já recebeu inúmeros prêmios com seus alunos e como coreógrafo. Contudo, o que importa é transformar corpos brasileiros, fazê-los dançar. “Eu adoro o que faço.” Abaixo, um pouco de sua conversa com a Revista de Dança.

Como é seu trabalho no Pavilhão D?

Meu trabalho é de muita repetição. A repetição traz a perfeição. É um trabalho de formação mesmo, não só do balé clássico, mas da dança. Meu interesse é fazer com que os corpos sejam delineados e estejam prontos para se mexer de qualquer forma.

Qual a dificuldade desse dia a dia?

O importante é quando você consegue achar, consegue cruzar com pessoas que têm aptidão e vocação. A aptidão seria ter um corpo bom para a dança, não são todos os corpos que são aptos, principalmente para o balé. Mas o mais importante é a pessoa ter vocação, gostar do ensaio, gostar de fazer aula, gostar de repetir.

Como bailarino, você gostava disso?

Chegou um determinado momento da minha vida que isso já estava me saturando, não queria mais dançar. Comecei a me descobrir ao contrário, descobri outra coisa que é legal e tem esse resultado no palco.

Quando foi essa passagem?

Foi quando comecei a sentir dificuldades físicas para continuar exercendo a profissão de bailarino e fiquei pensando: o que vou fazer agora? Eu não tinha na cabeça ter uma escola. Comecei a dar aulas para sobreviver, não por prazer, porque queria me manter com a dança e ver o que faria, e foi nascendo um prazer imenso. O legal foi quando descobri, vi o que estava montando, vendo resultados, transformando corpos. Se você pega uma menina, entre 10 e 13 anos, transforma o físico dela para o resto da vida – para o bem ou para o mal. Quando vê essa transformação e sente que ali tem arte é o casamento perfeito.

O seu grande barato é dar aula para pessoas com esta idade?

O meu grande barato é dar aula para quem está a fim, não para quem paga a mensalidade. É que, nesta fase, você vê o corpo se transformar. Quando está mais velho, a transformação é quase imperceptível porque é mais lenta, o corpo já está formado. Mas nessa fase, em três meses, você já vê a diferença.

Você também é considerado um ótimo olheiro da dança.

Acho fundamental em qualquer professor, não só de dança, ter um olhar diferenciado para cada

Fotos: Amir Sfair Filho

Scheir olha para cada aluno

Scheir olha para cada aluno
Foto: divulgação

Cena de Segundo toque

Cena de Segundo toque 

 

 

pessoa. Não pode ter um olhar aberto para todos, tem que olhar com calma e procurar qualidades em cada um. Algumas qualidades já estão a vista, outras você vai cutucando e encontrando. Ainda tem algumas pessoas que vejo, já passaram da idade, mas são inteligentes – como captam e transferem as informações para o corpo. Essa inteligência faz diferença. Você pode pegar uma menina de 17 anos, se ela tiver um bom físico para o balé, se ela for inteligente, em dois anos, você a transforma. Óbvio, quanto mais cedo começar, você vai modelando, deixando o corpo de uma forma que, quando ela for mais velha e tiver estrutura física, poderá fazer tudo que pedir. Quando o corpo não é jovem, o cérebro tem que trabalhar o dobro para cobrir essa falta.

Você também consegue ver alguém dançando qualquer estilo e perceber que tem talento?

Viajo muito, o Brasil inteiro, dou aulas. Às vezes, algo me chama atenção. É difícil explicar. Se olho duas vezes, olho a terceira para ver por que olhei. Às vezes, é só o olhar, às vezes, como mexe o braço. Eu vejo qualidades, não precisa ser sempre a mesma coisa. Às vezes, a coisa aparece quando menos se espera. Eu me lembro de um grupo em um concurso que tinha vários jovens fazendo dança de salão. Eu vi um adolescente e ele me chamou atenção, era diferente dos outros, a forma como se mexia, a forma como olhava, a forma do pescoço. Cheguei para a professora e falei que gostaria de conhecê-lo e pedi para ele fazer uma aula minha. A professora disse que ele não fazia balé, mas falei que não tinha problema, só queria vê-lo com mais calma. Realmente ele não sabia nada de balé, mas tinha uma coisa natural, um brilho nos olhos, que achei lindo. Perguntei se ele não queria fazer qualquer tipo de dança; depois de uns três meses, apareceu na escola. Ficou aqui dois anos e já está na Alemanha há cinco. Nesse caso, não foi o físico que me chamou atenção, aquela coisa de ter en dehors, de ter a perna alta – isso também me chama atenção, é lógico. O que me chama atenção é isso que não consigo explicar, quando me faz olhar duas vezes

Para você, o que é importante em uma escola?

Para mim, é um negócio, tem um lado comercial, mas o importante em uma escola é educação e formação.

Sua escola tem uma educação formal em dança? Com diploma?

Eu não me prendo a isso. Para mim não existe: “olha, aqui está seu diploma, você está formado”. Para a arte, não existe isso, porque tem um momento que não adianta o papel. Não é o tempo de dança que faz um bailarino, é o que realmente ele tem de dança que a escola colocou para fora e mostrou sua capacidade de viver disso, de viver a dança. A pessoa pode ficar 15 anos fazendo aula, isso não quer dizer que ela vai ser uma bailarina. A parte técnica ela pode conseguir, meu diploma pode servir tecnicamente. Porque a escola dá a técnica, agora a arte, o talento, nós só lapidamos, já tem que vir com a pessoa.

Como você consegue dar atenção particular em uma aula com tantas pessoas?

Este é o segredo dos professores. Dentro de uma sala de aula, com trinta pessoas, eu tenho que saber fazer valer aquela aula para trinta corpos diferentes. Não temos trinta corpos iguais, como a escola do Bolshoi, por exemplo, onde vemos quinze meninas com o mesmo tamanho de perna, mesmo tamanho de pescoço, mesmas condições físicas. Neste caso, define-se uma aula, uma técnica e elas são preparadas. Nós temos corpos diferentes: um tem tendão mais curto, outro mais longo, outro tem a musculatura mais forte, outro tem musculatura mais frágil, outro pensa mais rápido. Tenho que saber lidar com isso e fazer com que a aula seja boa para todos ao mesmo tempo. É um desafio, é disso o que eu gosto. É um desafio ter um rapaz longilíneo, com físico bom, e ter um rapaz todo troncudo, curto, todo antidança; é bom ter os dois juntos. Vou dar a mesma aula para os dois, mas vou fazer com que os dois trabalhem diferentes, são os desafios que temos no Brasil.

Qual a carga horária para quem quer se profissionalizar?

Eles ficam na escola três ou quatro horas por dia.

 

Como se fosse, de 2010, de Scheir

Como se fosse, de 2010, de Scheir

 

Quanto tempo você tenta trabalhar com um bailarino?

Não tenho um tempo determinado, é até a hora que vejo que ainda está valendo a pena tentar. Algo me diz, chega.

Alguns de seus alunos dançam hoje em alguma companhia no Brasil?

Sim. Tenho ex-alunos no Balé da Cidade, na Cisne Negro Cia de Dança, na São Paulo Companhia de Dança, entre outras.

Você ainda hospeda bailarinos que são de fora de São Paulo em sua casa?

Neste momento tem pouco.

Poderia contar um pouco desta história.

Tudo tem um preço a pagar. Vejo esses talentos e vejo também que não teriam condições de viver em São Paulo, não é fácil viver aqui. Tento, da minha forma, ajudar e uma das formas que posso é oferecer a casa por um tempo.

Tem alguma regra?

Dentro de casa, coloco algumas regras, alguns itens para convívio. Se não é complicado, alguns são desconhecidos. Não tive muitos problemas até hoje e já coloquei muitas pessoas lá. Digamos que 10% tenha me dado algum trabalho. É uma porcentagem muito pequena, a grande maioria soube se portar. Temos muita coisa em comum. Tenho sede dessa formação, eles têm sede dessas informações para formação. A única coisa meio ruim é que não consigo me desligar porque eu saio daqui, vou para casa, e continua o mesmo tema.

Quantos alunos têm na sua escola?

Depende. Porque falo isso, tudo tem um preço a pagar para manter essa qualidade. Por exemplo, se você é uma mãe e chega aqui, quer uma avaliação, eu sou sincero, vou falar exatamente o que vi. Nem todas gostam dessa franqueza, mas eu prefiro ser franco. Se ela quiser matricular a criança assim mesmo, não vai ter cobrança. Mas a grande maioria não aceita e vai embora. Se a pessoa não tem realmente jeito, o mínimo, não é aptidão, é jeito para dançar, não coloco para dançar. Não é pagando que vai colocar a criança para dançar, eles (os pais) pagam a mensalidade para fazer aula, mas alguns acham que, se pagam, tem o direito de dança, e dançar o que quer. Comigo não é assim, com isso, óbvio, perco muito aluno. Trabalho muito fora da escola, onde eu realmente ganho dinheiro. A escola quero que ela se mantenha. Ela se mantém para que seja um laboratório. Eu tenho hoje cerca de 130 alunos e 40 bolsistas.

Todo professor ou formador é bravo?

Não sei. Tem algumas pessoas que se chegar para elas e falar assim: o ombro aqui tem que ser baixo e o joelho bem esticado, você entendeu? Ela vai entender. Para outro, tenho que falar (em tom bravo): você ainda não entendeu que o ombro é baixo e o joelho é esticado? Isso é como ter dois filhos, para um, às vezes só informar é suficiente, para outro, você precisa informar e mudar o tom de voz para ficar atento. Digamos que eu seja chato. Sou chato. Alguns professores desistem, eu sou chato. Se entrarem comigo na sala, vão tem que entender. Vou procurando jeitos de fazer isso. Falando normal, falando sério, sendo rígido, tirando barato, vou procurando alguma forma, algum resultado vai ter que dar. Não tenho uma forma de trabalhar, vou procurando formas de ter resultados.

Qual sua maior referência?

Minha referência é a dona Toshie (Toshie Kobayashi), minha mestra. Ela me fez ter amor ao balé, amar isso. Quando falei que pretendia ter uma escola e o apoio dela era importante, ela me disse: se você quer ter uma escola, vou te apoiar ao máximo, mas você vai ter que estar aqui e vai me assistir a dar as aulas. Para mim, foi um grande aprendizado técnico, o que ela via, como ela enxergava aqueles corpos. Ela brincava: o importante é chegar ao supermercado, cada um vai ter um caminho, um vai ter um caminho mais plano, outro talvez uma descida, outro uma subida, outro cheio de curvas. Digo que o bom professor não é aquele que dá uma boa aula, o bom professor é aquele que tem uma aula que traz resultados. Não adianta ter uma aula pronta se aquela aula não está trazendo resultados para aqueles corpos que estão ali. Estou sendo um bom professor se eu entender aqueles corpos e fizer com que eles dancem.

Qual seu desafio hoje?

Eu ainda quero ter uma grande república da dança, onde as pessoas não tenham que pagar para ter estudo e eu possa oferecer trabalho psicológico, físico, artístico. É um sonho e ainda vou ter.